TOMÁS DE AQUINO
VERDADE E CONHECIMENTO
(Questões Disputadas sobre a Verdade e o Verbo e "A diferença entre a palavra divina e a humana")
(De veritate, q. 1 e q.4 e De differentia verbi divini et
humani)
Tradução, estudos introdutórios e notas de:
Luiz Jean Lauand e Mario Bruno Sproviero
Martins Fontes
São Paulo, 1999
Tomás de Aquino:
Vida e Pensamento - Estudo introdutório geral(Jean
Lauand)
Prólogo
Cronologia
de Tomás
1.
Introdução: atualidade de Tomás
2.
O quadro histórico de Tomás: um século de contradições
3.
O "Movimento da Pobreza", Aristóteles e a Universidade
4.
A quaestio disputata, essência da universidade
5.
A Criação pelo Verbo: fundamento do conhecimento e da inesgotabilidade
do conhecimento
6.
O filosofar cristão
7.
O método de Tomás: fenômeno e linguagem
8.
O Verbo, o falar e a palavra
9.
Ser e Participação em Tomás
10.
Tomás do Deus Criador
11.
A alma como forma
12.
Nota sobre a unidade do ser humano
13.
Outras notas sobre a quaestio disputata sobre o verbo
"Veritas uniuscuiusque rei est
proprietas sui esse quod stabilitum est ei"
"A verdade de uma coisa é
a característica própria de seu ser, que lhe foi dada como
propriedade constante" (Avicena, citado por Tomás I, 16, 3)
Prólogo
Apresentamos
ao leitor, sob o título Verdade, Conhecimento e Verbo, a
edição bilíngüe de duas questões disputadas
do De Veritate de Tomás de Aquino: "A Verdade" (q. 1) e "O
Verbo" (q. 4) (esta precedida do opúsculo A diferença
entre a palavra divina e a humana). O De Veritate, obra em que
Tomás recolhe seu magistério de 1256 a 1259 na Universidade
de Paris, compõe-se de 29 questões independentes, das quais
- pela harmonia temática - selecionamos essas duas.
Duas
questões, dois temas capitais de um pensamento que - como veremos
- é marcado pelas notas da abertura e da universalidade, que superam
qualquer tentativa de enclausurá-lo num corpo fechado de doutrina.
Esta é uma das razões pelas quais Weisheipl - há um
quarto de século - já previa que "o revitalizado interesse
por Tomás talvez não proceda de centros católicos
de pensamento, mas antes de universidades e centros de pesquisa seculares"[1].
Naturalmente,
além das dificuldades próprias para a compreensão
de um sólido pensamento filosófico, os mais de 700 anos que
nos separam do Aquinate impuseram a necessidade de estudos introdutórios
e glossário (necessariamente sintéticos) que auxiliem o leitor
a compreender o alcance e o significado de seu pensamento.
Assim,
após uma "Cronologia", encontra-se "Tomás de Aquino - Vida
e Pensamento", estudo introdutório geral (com ênfase para
a questão do Verbo). Apresentam-se os seguintes temas: o ato de
ser, criação e participação como essenciais
na filosofia de Tomás; a alma e o espírito; o problema da
filosofia cristã; a linguagem e o Verbo etc.
Em
seguida, M. Sproviero em "A verdade e a evidência" discute a concepção
do Aquinate de verdade como adequatio, em diálogo com os
principais posicionamentos de outros pensadores. E os fundamentos da certeza
e da evidência, também em contraste com outros filósofos.
Após
os estudos introdutórios, apresentam-se as questões de Tomás,
precedidas de um resumo elaborado pelos tradutores.
No
momento em que escrevemos este prólogo, ocorrem dois eventos que
representam emblematicamente a presença de Tomás em nosso
tempo.
O
governo de sua terra natal, a minúscula Roccasecca (Frosinone -
Itália), promove um magnífico concurso internacional (http://www.comune.roccasecca.fr.it/)
para a realização de uma estátua (em bronze, de 15
m) em honra de seu filho mais ilustre, para a abertura do próximo
milênio... A comunidade encarregou-se também das obras de
recuperação do Castello dei D'Aquino e dos luoghi
de S. Tomás. Entre outros nomes ilustres, integra o Comitê
organizador, o erudito pensador Roberto Busa, um dos pioneiros da mídia
eletrônica, que fez com que S. Tomás fosse um dos primeiros
autores a estar disponível na íntegra em hipertexto em CD-ROM.
Por
outro lado, acaba de ser lançado, um dos mais profundos estudos
de João Paulo II, a encíclica Fides et Ratio, que
dá a Tomás "um lugar absolutamente especial: não só
pelo conteúdo da sua doutrina, mas também pelo diálogo
que soube instaurar com o pensamento árabe e hebreu do seu tempo.
Numa época em que os pensadores cristãos voltavam a descobrir
os tesouros da filosofia antiga, e mais diretamente da filosofia aristotélica,
ele teve o grande mérito de colocar em primeiro lugar a harmonia
que existe entre a razão e a fé. A luz da razão e
a luz da fé provêm ambas de Deus: argumentava ele; por isso,
não se podem contradizer entre si. Indo mais longe, S. Tomás
reconhece que a natureza, objeto próprio da filosofia, pode contribuir
para a compreensão da revelação divina. Deste modo,
a fé não teme a razão, mas solicita-a e confia nela"
(N. 43).
O
texto latino de que nos valemos para as traduções do De
Veritate é o da edição eletrônica feita
por Roberto Busa Thomae Aquinatis Opera Omnia cum hypertextibus
in CD-ROM. Milano, Editoria Elettronica Editel, 1992 (Textus Leoninus
aequiparatus t. XXII). As Questões disputadas sobre a verdade
são neste CD apresentadas sob os números 11 e 12.
Luiz
Jean Lauand
outubro de 1998
Cronologia de Tomás
de Aquino
(elaborada por LJL)
Contexto em que ocorre o
nascimento de Tomás
c.
1170Nascimento de São Domingos
em Caleruega (Castela).
1182Nascimento
de Francisco de Assis. Francisco e Domingos irão fundar, no começo
do séc. XIII, as ordens mendicantes: franciscanos e dominicanos.
As ordens mendicantes, voltadas para a vida urbana, e, posteriormente,
para a Universidade, sofrerão duras perseguições em
Paris.
c.
1197Nascimento de Alberto Magno, um
dos primeiros grandes pensadores dominicanos, mestre de Tomás.
1210Primeira
proibição eclesiástica de Aristóteles em Paris.
1215Estatutos
fundacionais da Universidade de Paris.
Inglaterra:
Carta Magna.
Fundação
da Ordem dos Pregadores.
1220Coroação
do Imperador Frederico II.
1224/5Nascimento
de Tomás no castelo de Aquino, em Roccasecca (reino de Nápoles).
Filho de Landolfo e Teodora. Seu pai e um de seus irmãos pertencem
à aristocracia da corte de Frederico II.
Frederico
II funda a Universidade de Nápoles para competir com a Universidade
de Bolonha (pontifícia).
1226Morte
de S. Francisco de Assis.
Infância e adolescência
no Reino de Nápoles
1231Tomás
é enviado como oblato à abadia de Monte Cassino (situada
entre Roma e Nápoles). Monte Cassino, além de abadia beneditina,
é também um ponto crucial na geopolítica da região:
é um castelo de divisa entre os territórios imperiais e pontifícios.
1239-44
Tomás estuda Artes Liberais na Universidade de Nápoles e
toma contato com a Lógica e a Filosofia Natural de Aristóteles,
em pleno processo de redescoberta no Ocidente. Conhece também a
recém-fundada ordem dominicana, que - junto com a franciscana -
encarna o ideal de pobreza e de renovação moral da Igreja.
Juventude na Ordem dos Frades
Pregadores
1244Tomás
integra-se aos dominicanos de Nápoles, sob forte oposição
da família, que tinha para o jovem Tomás outros planos que
não o de ingressar numa ordem de pobreza.
1245-8Superada
a oposição da família, Tomás faz seu noviciado
e estudos em Paris. A Universidade de Paris, desde há muito, goza
de um prestígio incomparável.
1248Sexta
Cruzada.
1248-52
Tomás com Alberto Magno em Colônia, onde em 1250/51 recebe
a ordenação sacerdotal.
1250Morre
Frederico II.
Os anos de maturidade
1252-9
Tomás professor em Paris. Inicialmente (1252-1256), como Bacharel
Sentenciário e, de 1256 a 1259, como Mestre Regente de Teologia.
Fruto direto deste magistério é o De Veritate. Escreve
o Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo.
Em 1259, começa a redigir a Summa Contra Gentiles. Em defesa
da causa das Ordens mendicantes, perseguidas, escreve em 1256 o Contra
impugnantes Dei cultum et religionem.
1260-1Tomás
é enviado a Nápoles, para organizar os estudos da Ordem.
Continua a compor a Contra Gentiles.
1261-4O
papa Urbano IV - pensando numa união entre o Oriente cristão
e a Cristandade ocidental - leva Tomás por três anos a sua
corte em Orvieto.
1264Tomás
conclui a Summa Contra Gentiles.
1265Tomás
é enviado a Roma com o encargo da direção da escola
de Santa Sabina. Começa a escrever seus Comentários a Aristóteles
e a Summa Theologica. Nascimento de Dante Alighieri.
1266Nascimento
de Giotto.
1267Um
novo papa, Clemente IV, chama Tomás à sua corte em Viterbo,
onde permanece até o ano seguinte.
1269-72
Tomás exerce sua segunda regência de cátedra em Paris.
Escreve o Comentário ao Evangelho de João (o De
differentia é a parte inicial do Comentário).
Recrudesce a perseguição contra as ordens mendicantes na
Universidade de Paris.
1272-73Tomás
regente de Teologia em Nápoles.
1274Tomás
morre a caminho do Concílio de Lyon.
1277Condenação,
por parte do bispo de Paris, de 219 proposições filosóficas
e teológicas (algumas de Tomás) em Paris.
1280Morte
de Alberto Magno.
1323Tomás
é canonizado por João XXII.
Tomás de Aquino - Vida
e Pensamento
Estudo introdutório
geral (e à questão "O Verbo")
"Nos non possumus omnia quae sunt in anima nostra uno verbo exprimere, et ideo oportet quod sint plura verba imperfecta, per quae divisim exprimamus omnia quae sint in scientia nostra sunt"
"Nós não podemos expressar em uma única
palavra tudo o que há em nossa alma e devemos valer-nos de muitas
palavras imperfeitas e, por isso, exprimimos fragmentária e setorialmente
tudo o que conhecemos" (Tomás de Aquino De Differentia V,
1)
Jean
Lauand
1.
Introdução: atualidade de Tomás
O
homem, diziam os antigos, é fundamentalmente um ser que esquece.
Nesta tese, também ela hoje esquecida, convergem profundamente as
grandes tradições do pensamento oriental e ocidental[2].
Para os antigos, neste ponto dotados de maior sensibilidade do que nós,
era evidente a existência de uma alienante tendência humana
para o esquecimento. Naturalmente, não se trata aqui do periférico,
mas do essencial, as questões decisivas vão se embotando:
Que é ser homem? O que é a verdade e o que ela representa
para a vida? Qual o significado da existência? Etc.
Esse
misto de esquecimento e desatenção (não nos esquecemos
da data do depósito bancário nem do dia da final do campeonato),
triste característica humana de todos os tempos, afeta agudamente
o homem contemporâneo[3]
e acabou por criar uma crise de orientação, de sabedoria
e de ética. Uma crise tanto mais grave porquanto muitos dos seus
protagonistas nem sequer suspeitam que essa carência existe e que
realmente é uma carência. Buscam-se soluções
definitivas para o profundo mal-estar do homem moderno em campos onde elas
não podem estar: na economia, na tecnologia, nas ciências,
nos movimentos ecológicos ou revolucionários... Mas deixam-se
sem resposta - de modo mais ou menos consciente - as questões mais
decisivas.
E
que tem um frade medieval que ver com tudo isto? Tomás de Aquino
é, por assim dizer, o último grande clássico; recolhe
as grandes contribuições do pensamento filosófico
(de Aristóteles aos árabes), harmonizando-as, numa síntese
original e profunda, com a revelação cristã. Essa
síntese adquire atemporalidade na medida em que se dá com
as propriedades que são suas características mais marcantes:
a abertura e o universalismo.
Abertura
e universalismo. Contra muitos mestres de sua época, Tomás
afirma a realidade em sua totalidade - a matéria, o espírito
e o espírito intrinsecamente unido à matéria no homem
-; proclama a bondade da obra criadora de Deus em toda a sua extensão
- visibilium omnium et invisibilium - e defende a unicidade da alma
humana: a alma espiritual, capaz de uma união mística com
Deus é a mesma e única que promove a prosaica digestão
de alimentos ou a circulação do sangue.
O
próprio conceito de espírito para Tomás é essencialmente
abertura: espírito não é uma fumacinha desencarnada,
mas precisamente a abertura - (potencialmente) infinita - para a totalidade
do real: já no primeiro artigo da primeira questão do De
Veritate, Tomás afirma que a alma humana, por ser espiritual,
"é de certo modo todas as coisas" ("anima est quodammodo omnia")
e, por natureza, pode travar relações com tudo o que é
("convenire cum omni ente").
Abertura
e universalismo. Entre outros aspectos que examinaremos mais adiante, Tomás,
ao mesmo tempo que cultiva uma teologia bíblica, recorre aos filósofos
pagãos e muçulmanos para elaborar sua teologia. O compromisso
de Tomás é unicamente com a verdade das coisas e se recorre
a este ou àquele autor é para investigar a verdade das coisas:
"os argumentos filosóficos não são acolhidos pela
autoridade de quem diz, mas pela validade do que se diz" ("non... propter
auctoritatem dicentium, sed propter rationem dictorum" - In Trin.
2, 3, ad 8).
Além
do mais, o pensamento de Tomás é o que há de mais
oposto a um sistema fechado, completo e acabado. Ainda que, diga-se de
passagem, a tendência ao fechamento da "doutrina" (enunciada em umas
tantas "teses") num bloco não esteja totalmente ausente das obras
de alguns de seus seguidores (daí a problematicidade de um "tomismo").
Como encerrar num sistema compacto, num "ismo", uma filosofia que, como
veremos no tópico 4, se declara essencialmente "negativa" e afirma
que "as essências das coisas nos são desconhecidas"? (De
Veritate 10, 1). Se uma sentença como esta nos surpreende é
sinal de que estamos precisando voltar-nos mais para Tomás e menos
para o "tomismo"...
Estabelecer
o diálogo com Tomás - sobretudo nestes temas centrais: a
verdade e o conhecimento - é precisamente deixar-nos lembrar
daquilo que de mais fundamental foi elaborado por nossa tradição
ocidental. A seguir, apresentaremos um enquadramento contextual bio-bibliográfico
do Aquinate, de modo quase esquemático e sem nenhuma pretensão
de originalidade (há muitos e muito bons livros sobre Tomás):
seguiremos dois de seus melhores intérpretes contemporâneos:
Josef Pieper e o citado Weisheipl. Este estudo pretende servir como uma
breve introdução geral ao pensamento de Tomás, contextualizando
as questões disputadas que apresentamos ao leitor neste volume,
particularmente a questão sobre "O verbo".
2.
O quadro histórico de Tomás: um século de contradições[4]
Os
cinqüenta anos da vida de Tomás de Aquino (1225-1274) estão
plenamente centrados no século XIII, e não só do ponto
de vista cronológico: todas as significativas novidades culturais
desse tempo mantêm estreita relação com sua vida e
lutas. Ao contrário do clichê que o apresenta como uma época
de paz e equilíbrio harmônico, esse século é
um tempo de agudas contradições, tanto no plano econômico
e social como no do pensamento.
A
Cristandade - há séculos sitiada pelo Islã e, agora,
ameaçada pelas hordas asiáticas - encontra-se na condição
de ser um pequeno grupo no meio de um imenso mundo não-cristão.
Não se trata só de limitações bélicas
ou de fronteiras: há muito tempo o mundo árabe se tinha imposto,
não só pelo poderio político-militar, mas também
por sua filosofia e ciência. Estas, mediante traduções,
tinham penetrado na Cristandade e em seu centro intelectual: a Universidade
de Paris. Se essa filosofia e ciência não eram, em boa medida,
muçulmanas, eram, ao menos, algo novo, estranho, perigoso, pagão.
Ao
mesmo tempo, essa Cristandade do século XIII é abalada nas
bases de sua estruturação política: em 1214, pela
primeira vez, um rei nacional enquanto tal vence o Imperador, na batalha
de Bouvines. Outra "novidade" são as guerras religiosas no seio
da Cristandade: durante décadas parecem perdidos definitivamente
todo o sul da França e o norte da Itália.
O
antigo monacato - que poderia ser lembrado como um possível fator
de renovação espiritual - parece ter perdido toda sua força
(apesar dos movimentos reformistas...) e o episcopado encontra-se também
esvaziado em suas reservas morais.
Por
outro lado, a Cristandade responde a esse estado de coisas de modo muito
ativo: no século XIII não só se constroem catedrais,
mas também florescem universidades que iniciam e ampliam a conquista
da cultura mundana. Outro fenômeno importante é o surgimento
dos dominicanos e franciscanos, as "Ordens Mendicantes", que, de modo surpreendente,
vão estar intimamente ligadas às universidades (e, de início,
enfrentar dura oposição). Também das Ordens mendicantes
brota o impulso de defrontar-se com o mundo não-cristão:
a Summa contra Gentiles de Tomás dirige-se ao diálogo
com mahumetistae et pagani (CG 1,2) e, em meados do século,
os dominicanos fundam as primeiras escolas cristãs de língua
árabe.
Tomás
nasceu em 1224/5 no castelo de Roccasecca, entre Roma e Nápoles.
De um lado, Tomás é "italiano" (alguns de seus sermões
ao povo são pregados em sua língua materna, a língua
da gente de Nápoles) e, por outro, tem sangue germânico tanto
por parte de pai como de mãe. E o ambiente social em que Tomás
cresce está marcado pelo selo dos imperadores germânicos dos
Hohenstaufen: seu pai e um de seus irmãos pertencem à aristocracia
da corte de Frederico de Hohenstaufen.
Tomás,
com cinco ou seis anos, é enviado à abadia de Monte Cassino,
situada em sua terra natal: o plano da família é que ele
venha a se tornar abade desse importante mosteiro. Cerca de dez anos depois
vai para Nápoles, onde estuda Artes Liberais na Universidade e toma
contato com a Lógica e a Filosofia Natural de Aristóteles
(num momento em que, em Paris, estava proibido o pagão Aristóteles)
e conhecerá os dominicanos (trata-se, como diz Pieper, de uma "fuga":
Monte Cassino, além de abadia beneditina, é também
o castelo de fronteira entre os territórios imperiais e pontifícios.
Também este episódio da vida de Tomás incrustra-se
emblematicamente em seu tempo: 1. as lutas entre o Papado e o Império;
2. a falta de vigor do monacato para as exigências dos novos tempos;
3. o declínio do campo e o deslocamento da cultura para a cidade
- e para a universidade -; 4. o encontro com Aristóteles e 5. o
dinamismo do "movimento de pobreza").
Com
dezenove anos, Tomás ingressa numa das "Ordens Mendicantes", a Ordem
dos Pregadores, os dominicanos, fundados pelo espanhol Domingo de Guzmán.
Seus confrades de Nápoles, procurando afastar o noviço da
esfera de poder da família e também da do Imperador (as Ordens
mendicantes sempre são suspeitas de "estar do lado do Papa"), tentam
enviá-lo a Paris, mas, no caminho, Tomás é aprisionado
por seus próprios irmãos e é mantido por bons meses
contra sua vontade no castelo do pai.
Superada
finalmente a oposição da família, chega Tomás
à Universidade por excelência, Paris: primeiro como estudante,
depois como um de seus maiores professores de todos os tempos. Em Paris,
exatamente no ano de sua chegada, 1245, começa a lecionar Alberto
Magno: o doutor universal - em conhecimento, abertura e modernidade -,
o mestre sob medida para o gênio do jovem Tomás. Ambos viajam
para Colônia, onde Alberto deve erigir uma escola da Ordem. Alberto
propicia a Tomás um ingrediente básico: o neo-platonismo,
haurido no Pseudo-Dionísio Areopagita. Um neo-platonismo que Tomás
concertará - em sua síntese pessoal - com o aristotelismo.
Com
vinte e sete anos, Tomás é chamado de volta a Paris, primeiro
como mestre da escola dominicana do convento de Saint Jacques e, depois,
como professor de Teologia na Universidade, enfrentando forte antagonismo
- mais dirigido contra as Ordens mendicantes do que contra ele pessoalmente.
Com
os dominicanos, encarna Tomás um novo tipo de vocação
religiosa: para ele, a clausura é interior, uma cela de contemplação
dentro de si que convive com a agitação da vita activa:
o ensino e a discussão intelectual.
Esta
agitação acompanhará toda a vida de Tomás.
Após sua primeira regência em Paris, é enviado à
Itália (1260) para atender a encargos de organização
de estudos da Ordem. Depois (1261), o papa Urbano IV - pensando numa união
entre o Oriente cristão e a Cristandade ocidental - leva-o por três
anos à sua corte em Orvieto. Em 1265, outro encargo: a direção
da escola de Santa Sabina, em Roma, por dois anos. Tomás - a quem
só restam dez anos de vida - não começou a escrever
nenhum de seus doze Comentários a Aristóteles e nem a Summa
Theologica (é nesta estada em Roma que começa essas obras).
Em 1267, um novo papa, Clemente IV, chama-o à sua corte em Viterbo.
Em
1269, um fato surpreendente: a direção da Ordem chama-o para
uma nova estada na Universidade de Paris. A perseguição às
Ordens mendicantes recrudesceu: já não se trata mais de cátedras,
mas da própria doutrina que fundamenta os dominicanos. Além
disso, questiona-se fundamentalmente - Tomás está entre dois
fogos - aquela abertura e universalidade que Tomás terá de
defender absolutamente sozinho. Em meio a essas tribulações,
nesses seus últimos anos parisienses (novamente três), Tomás
consegue escrever em um ritmo inacreditável: Comentários
a quase todas as obras de Aristóteles, ao livro de Jó, ao
Evangelho de João, às epístolas de Paulo; as Quaestiones
disputatae sobre o mal e sobre as virtudes; a enorme parte II da Summa
Theologica...
A
polêmica acirra-se tanto que a direção da Ordem toma
a discutível decisão de que Tomás deixe Paris e retorne
a Nápoles com o encargo de fundar uma escola... Passado um ano,
por encargo pontifício, põe-se a caminho de Lyon para participar
do Concílio Ecumênico. No caminho, cai doente e morre, no
dia 7 de março de 1274, com menos de cinqüenta anos.
3.
O "Movimento da Pobreza", Aristóteles e a Universidade[5]
Mas
voltemos à caracterização do século XIII, detendo-nos
um pouco em três de seus aspectos mais ligados a Tomás: as
Ordens Mendicantes, a recepção de Aristóteles e a
Universidade.
A
Igreja, cujo poder e influência temporais vinham crescendo desde
o século IX - o que lhe garantia a independência frente aos
poderes civis -, corre por isso mesmo o risco de contaminar-se com os usos
e costumes do mundo feudal. Estava em vias de cumprir-se o que formulara
um monge desse tempo: "A temperança produz riqueza, a riqueza destrói
a temperança"[6].
Não
é de admirar que tivessem surgido por essa época, por reação,
diversas heresias que pretendiam opor-se à Igreja por métodos
violentos. Os albigenses e os cátaros - do grego kátharoi,
"puros" - constituíam uma revivescência medieval da antiga
concepção maniqueísta, que já dera bastante
trabalho à Igreja nos séculos IV e V. Diante da presença
do bem e do mal no mundo, afirmavam a existência de um duplo princípio
da realidade: por um lado, Deus, criador do espírito e de tudo o
que é luminoso, bom e puro; pelo outro, um princípio da matéria,
"cárcere da alma", origem de todo o mal.
É
nesse contexto que S. Domingos e S. Francisco fundam as ordens dominicana
e franciscana, rejeitando os erros dos hereges, mas acolhendo o que havia
de legítimo nos ideais de reforma e dando-lhes uma expressão
equilibrada e verdadeira dentro da Igreja e não fora dela.
Os frades dominicanos dedicar-se-ão a reevangelizar os sectários,
levando a sério a pobreza evangélica e dirigindo-se a eles
mediante debates públicos fundamentados na Sagrada Escritura. Juntamente
com os franciscanos, que nascem nesta mesma época, são os
"galgos de Deus" - domini canes - que levarão a cabo a renovação
da Igreja.
O
êxito das duas ordens, englobadas sob a denominação
de "mendicantes" por renunciarem a todo o tipo de posses, é explosivo.
Por ocasião da morte do fundador, apenas cinco anos depois da aprovação
oficial da sua regra, os dominicanos têm mais de trinta conventos
espalhados pela França, Itália, Espanha, Alemanha, Hungria,
Inglaterra, Suécia e Dinamarca. Tal como os franciscanos, renunciam
à vida retirada do monacato tradicional, dirigindo-se especialmente
à juventude das cidades - o século anterior, aliás,
havia assistido a um reflorescimento da vida urbana. O silêncio e
a tranqüilidade do claustro são substituídos pela "cela
interior" que todos os frades devem "levar consigo", mesmo no meio do burburinho
da rua.
Ao
contrário dos franciscanos, que davam primazia a uma piedade afetiva,
os dominicanos constituíram desde o início uma ordem sóbria
e racional, voltada para as Universidades nascentes e para a teologia;
o estudo da Bíblia e das ciências passa, por conseguinte,
ao primeiro plano, e as suas Constituições estabelecem,
por exemplo, que o religioso pode deixar a oração comunitária
por causa do estudo, o que seria uma dispensa impensável na tradição
beneditina.
É
natural que Tomás se fizesse dominicano: o ideal de São Domingos
coincide perfeitamente com a vocação de Tomás. Está
centrado, por um lado, no retorno ao espírito do Evangelho, numa
pobreza e pureza radicais, mas completadas pela fé e pela humildade;
e, por outro, na paixão de anunciar a verdade, convencendo pela
argumentação e não pela violência. Efetivamente,
na Suma contra os gentios, o Aquinate se propõe "apresentar
as verdades da fé de tal forma que o erro caia por si"[7].
Há
ainda dois outros fenômenos que caracterizam a ebulição
intelectual do século XIII: as Universidades e - vinculada
a elas - a introdução do pensamento aristotélico
no Ocidente.
No
início do século XIII, e parcialmente já no anterior,
tinha-se iniciado em torno dos melhores colégios superiores diocesanos
uma espécie de "reação em cadeia": para lá
afluíam os melhores estudantes, e, em conseqüência, lá
se formavam e se estabeleciam os melhores mestres. Em pouco tempo, estudantes
e professores resolveram erigir uma corporação de ofício
própria, que os libertasse da ingerência dos poderes civis
e eclesiásticos. Nascia a universitas, a "totalidade" dos
professores e dos estudantes de determinada cidade. Como pretendiam constituir,
por assim dizer, uma sociedade dentro da sociedade, dedicada unicamente
à busca do saber, as universidades logo encontraram resistências
- aqui, por parte de um soberano zeloso dos seus direitos e taxas, ali,
por parte de um bispo cauteloso. Via de regra, solicitavam ao Papado a
isenção, fórmula jurídica que as vinculava
diretamente à Santa Sé, desvinculando-as das tutelas locais.
Paris recebe o seu estatuto do próprio papa em 1215.
Não
por acaso a palavra universitas, a agremiação dos
professores e alunos, acumula semanticamente, desde os começos da
instituição, também o matiz de universitas litterarum,
"universalidade do conhecimento": podiam-se estudar ali não só
todas as ciências da época, mas estudá-las "filosoficamente",
tendo em conta o universum: "o todo das coisas divinas e humanas
em universal", segundo o ideal de Platão[8].
A Universidade de Paris, então "capital da Cristandade", considerava-se
mesmo herdeira da famosa Academia de Atenas.
Na
época de Tomás, era ela que dominava o panorama intelectual
do Ocidente. É lá que se encontram os professores mais importantes,
os colegas mais agressivos, as oposições mais radicais, os
desafios mais provocantes e os estudantes mais turbulentos, vindos de todos
os cantos da Cristandade. As quatro "nações" - picardos,
ingleses, alemães e franceses - em que se agrupavam mestres e alunos
de Paris retratam bem a variedade das suas origens. Por isso mesmo, todas
as novidades e todas as questões que lá se discutiam encontravam
ressonância universal.
Foi
no ambiente privilegiado dessa universidade que Tomás desenvolveu
o melhor da sua obra e da sua docência e enfrentou as mais duras
batalhas intelectuais.
A
doutrina de Aristóteles invadiu o ambiente intelectual de meados
do século XII com a força de um terremoto. Os primeiros séculos
medievais somente haviam conhecido uma pequena parte dos escritos desse
filósofo grego, traduzidos para o latim pelo romano Boécio
(ca. 480-525), das suas obras sobre Lógica; em todos os outros campos,
a filosofia, a teologia e a ciência da Alta Idade Média haviam-se
norteado principalmente pelas obras de Santo Agostinho, na sua maior parte
inspiradas pela tradição neo-platônica. Naquele mundo
bárbaro e freqüentemente assolado por guerras, não era
fácil achar quem soubesse grego ou dispusesse das obras de Aristóteles,
ou ainda simplesmente quem se interessasse pelo assunto.
Aliás,
antes mesmo da queda de Roma, o pensamento aristotélico era visto
pelos cristãos como algo estranho e alheio à reta doutrina:
parecia demasiado "materialista" em comparação com o espiritualismo
de Platão, em aparência mais próximo do cristianismo.
Foram somente os hereges nestorianos que cultivaram as teorias aristotélicas,
e quando o Concílio de Éfeso condenou a cristologia de Nestório,
em 431, os seus seguidores - agrupados principalmente em torno da escola
de Edessa, na Síria - refugiaram-se na Pérsia, levando consigo
as obras de Aristóteles e outros textos de matemática, medicina
e outras ciências gregas.
Quando
os árabes conquistaram todo o Oriente Médio e o Império
Persa, os sábios aristotélicos foram chamados à corte
do califa de Bagdad. Pouco depois, por volta do ano 800, o árabe
já se havia tornado, graças a eles, uma língua científica
internacional, responsável em boa parte pelo brilho da civilização
árabe. É no âmbito desta civilização
que surgem os primeiros grandes comentadores de Aristóteles: Avicena,
nascido em 980 na Pérsia; Averróes, nascido em 1126 em Córdova;
e Maimônides, um judeu nascido em 1135, também em Córdova.
Em
Toledo, reconquistada pelos cristãos, funda-se no século
XII, por iniciativa do bispo Raimundo, uma escola de tradutores. As traduções,
diga-se de passagem, eram feitas de um modo um tanto estranho: um dos tradutores,
Abendehud, conta-nos que ia traduzindo os textos "palavra por palavra"
do árabe para o espanhol, enquanto um colega que estava sentado
ao seu lado os passava do espanhol para o latim... Tomás, mais tarde,
disporá de melhores traduções do Estagirita.
O
que primeiramente penetra no Ocidente não é, portanto, Aristóteles,
mas uma mistura de Aristóteles com os seus comentadores árabes,
o que era diferente do Aristóteles original... Mas o fato é
que, pela primeira vez, a Idade Média se depara com uma grandiosa
interpretação completa e sistemática do mundo, totalmente
à margem da Revelação cristã.
As
primeiras reações que desperta são fáceis de
prever justamente devido a essa equivocidade: há os que se entusiasmam
e, por assim dizer, se embriagam com a novidade, e também aqueles
que a vêem como algo suspeito e perigoso. A posição
da autoridade eclesiástica da época a respeito do filósofo
grego é também ambivalente: pressente-se que tudo aquilo
tem um valor imenso, mas, ao mesmo tempo, receia-se que a forma sob a qual
se apresenta seja inconveniente.
A
dinâmica espiritual do século XIII é, pois, dominada
por duas forças: um evangelismo radical do movimento da pobreza
que renova e aprofunda a piedade e "redescobre" a Sagrada Escritura e um
mundanismo inspirado em Aristóteles que confere à
razão natural e ao mundo material uma importância e uma independência
de que até então nunca tinham gozado.
É
evidente que nesses impulsos há matéria para conflitos dos
mais explosivos e formam-se em Paris dois "partidos": o dos que se aferram
à tradição teológica e menosprezam a investigação
racional do "mundo" e o dos que, fascinados com as possibilidades da razão,
consideram a teologia algo "não interessante". Em qualquer caso,
trata-se de um reducionismo, de um atentado contra "a abertura e a universalidade"...
É precisamente nisto que reside a grandeza de Santo Tomás:
tendo-se defrontado com estas "visões do mundo", que já então
se apresentavam fortemente antagônicas, não opta por uma
delas, mas aceita-as ambas, ultrapassando-as ao deslindar o conteúdo
de verdade de cada uma delas. Naturalmente, com isto, Tomás sofrerá
inúmeras incompreensões: cada um dos lados em conflito considera-o
um oponente em potencial! É precisamente em defesa dessa abertura
e universalidade que Tomás enfrenta sozinho suas tremendas lutas
na segunda regência em Paris...
4.
A quaestio disputata, essência da universidade
É
da primeira regência de Tomás em Paris que procedem as Quaestiones
Disputatae de Veritate. Essas questões foram disputadas em Paris
de 1256 a 1259: as questões 1 a 7 (Sobre a Verdade; o conhecimento
de Deus; as idéias divinas; o verbum; a providência
divina; a predestinação e o "livro da vida") são do
ano letivo 1256-1257; as de 8 a 20 (sabedoria angélica; comunicação
angélica; a mente como imagem da Trindade; o ensino; a profecia
como sabedoria; o êxtase; a fé; a razão superior e
a inferior; a sindérese; a consciência; o conhecimento de
Adão no Paraíso; o conhecimento da alma depois da morte e
o conhecimento de Cristo nesta vida), de 1257-1258 e as de 21 a 29 (a bondade;
o desejo do bem e a vontade; a vontade de Deus; o livre arbítrio;
o apetite dos sentidos; as paixões humanas; a graça; a justificação
do pecador e a graça da alma de Cristo), de 1258-1259.
A
quaestio disputata, como bem salienta Weisheipl[9],
integra a própria essência da educação escolástica:
"Não era suficiente escutar a exposição dos grandes
livros do pensamento ocidental por um mestre; era essencial que as grandes
idéias se examinassem criticamente na disputa". E a disputatio,
na concepção de um filósofo da universidade como Pieper,
transcende o âmbito organizacional do studium medieval e chega
até a constituir a própria essência da universidade
em geral[10].
Para
que o leitor possa bem avaliar o significado de uma quaestio disputata
em S. Tomás, apresentaremos o modus operandi dessas quaestiones,
procurando também indicar a ratio pedagógica que as
informa.
Uma
quaestio disputata está dedicada a um tema - como por exemplo
a verdade ou o verbum - e divide-se em artigos, que correspondem
a capítulos ou aspectos desse tema. Naturalmente, por detrás
da "técnica pedagógica" está um espírito: a
quaestio disputata, como analisaremos em tópico ulterior,
traduz a própria idéia de inteligibilidade - devida ao Verbum
(o Logos divino, o Filho) - ao mesmo tempo que a de incompreensibilidade,
a de pensamento "negativo", também fundada no Verbum...
Procurando
veicular, operacionalizar em método a vocação de diálogo
polifônico - que constitui a razão de ser da universitas
-, primeiro enuncia-se a tese de cada artigo (já sob a forma de
polêmica: "Utrum...[11]")
e a quaestio começa por um videtur quod non... ("Parece
que não..."), começa por dar voz ao adversário pelas
obiectiones, objeções à tese que o mestre pretende
sustentar.
Já
aí se mostra o caráter paradigmático e atemporal (e
atual...) da quaestio disputata, a essência da universidade,
assim discutida por Pieper: "Houve na universidade medieval a instituição
regular da disputatio, que, por princípio, não recusava
nenhum argumento e nenhum contendor, prática que obrigava, assim,
à consideração temática sob um ângulo
universal. Um homem como Santo Tomás de Aquino parece ter considerado
que precisamente o espírito da disputatio é o espírito
da universidade"[12].
E prossegue: "O importante é que, por trás da forma externa
de disputa verbal regulamentada, a disputa - com toda a agudeza de um confronto
real - dá-se no elemento do diálogo. Este ponto decisivo
é hoje, para a universidade, mil vezes mais importante do que pode
ter sido alguma vez para a universidade medieval".
Nos
textos de Tomás, após as objeções, levantam-se
contra-objeções (sed contra, rápidas e pontuais
sentenças colhidas em favor da tese do artigo; ou algumas vezes
in contrarium, que defendem uma terceira posição que
não é a da tese nem a das obiectiones). Após
ouvir estas vozes, o mestre expõe tematicamente sua tese no corpo
do artigo, a responsio (solução). Em seguida, a responsio
ad obiecta, a resposta a cada uma das objeções do início.
Weisheipl
procura descrever esse quotidiano da universidade medieval: "Parece que
no primeiro dia da disputa, quem respondia (respondens) era um bacharel.
No caso de Tomás, o bacharel-mor era Guilherme de Alton, dominicano
inglês que sucedeu a Tomás em 1259-1260. (...) A função
do bacharel em todas as disputas era responder às objeções,
provindas do público (e na ordem em que eram apresentadas), sobre
o tema proposto pelo mestre. Possivelmente, era tarefa dele também
apresentar argumentos sed contra, mas disso não podemos estar
certos. Na medida em que cada objeção era proposta e refutada
pelo bacharel, um escrivão tomava nota dos argumentos e das réplicas.
A disputa continuava deste modo, percorrendo todos os pontos indicados
pelo mestre. Algumas sessões eram longas e intrincadas; outras,
relativamente curtas (provavelmente, o horário permitido para o
debate era de três horas). No dia seguinte, depois de considerar
cada um dos argumentos pró e contra, o mestre dava sua determinatio
ou solução a toda a questão: esta solução
seguia a ordem do dia anterior, isto é, a dos artigos (se é
que havia vários). Freqüentemente, o mestre seguia as 'respostas'
dadas por seu bacharel. A versão da discussão, que se entregava
ao livreiro da Universidade, não se confundia com o debate oral,
porque a versão final era editada e documentada totalmente pelo
mestre, por vezes em data muito posterior"[13].
Torana-se
dispensável dizer que não se entende por quaestio disputata
nada que tenha que ver com sutilezas enfadonhas e estéreis. Por
outro lado, o que afirmamos acima sobre o diálogo e a impossibilidade
de dar resposta cabal, de esgotar um assunto filosófico não
significa, evidentemente, que na quaestio disputata não se
deva tomar uma posição e defendê-la: não se
trata, de modo algum, de agnosticismo. Podemos conhecer a verdade, mas
não podemos esgotá-la. Posto que o homem pode conhecer a
verdade (e na medida em que o pode fazer), a discussão filosófica
chega a uma responsio, a uma certa determinatio.
Finalmente,
dentre as características da quaestio disputata de S. Tomás
de Aquino, destaquemos a de dar voz ao adversário com toda a honestidade,
formulando sem distorções, exageros ou ironia (o que, em
geral, nem sempre ocorre nas polêmicas e debates de hoje), as posições
contrárias às que se defendem. Nesse sentido, Pieper faz
notar que em S. Tomás a objetividade chega a tal ponto que o leitor
menos avisado pode tomar como do Aquinate aquilo que ele recolhe dos adversários
a modo de objeção. A propósito[14],
é o caso do tão celebrado Carl Prantl, que interpretou como
se fosse a posição de Tomás objeções
brilhantemente por ele apresentadas às suas próprias teses.
Dizíamos
então que a quaestio disputata é um método
decorrente de uma visão de mundo, que encontra em Tomás seu
mais lúcido expoente. A esses fundamentos do pensamento, dedicamos
nosso próximo tópico.
5.
A Criação pelo Verbo: fundamento do conhecimento e da inesgotabilidade
do conhecimento
Na
própria base do pensamento de Tomás (base também para
o método da disputatio) encontra-se sua peculiar concepção
de Criação. No que se refere a nossos temas - verdade
e conhecimento - destacam-se dois pontos, particularmente importantes:
as coisas são cognoscíveis porque são criaturas e
as coisas são inesgotáveis para o conhecimento humano também
porque são criaturas! Isto é, o mesmo Deus que as criou pelo
Verbo, pelo Logos, pelo Pensamento é o criador do intelecto
humano, "feito para conformar-se às coisas" (De Veritate
1, 9). Assim, o próprio ser das coisas traz em si sua inteligibidade,
proveniente de Deus e oferecida à inteligência humana. Este
tema foi incomparavelmente tratado no curto ensaio de Pieper Unaustrinkbares
Licht[15],
que constitui a melhor introdução à questão
De Verbo e por isso transcrevemos aqui algumas passagens especialmente
significativas. Após expor uma particular dificuldade metodológica
de interpretação de um texto antigo (a de que o que é
evidente - e essencial - para o autor antigo - mas não para nós...
-, precisamente por ser evidente, não é expresso), Pieper
se detém a examinar a evidência (oculta) básica para
Tomás: a criação, a condição de criaturalidade
de tudo o que não é Creator.
A
clave oculta da "Criação"
Tomemos
o caso da filosofia de Tomás de Aquino. Nela, há um pensamento
fundamental, a partir do qual se determinam praticamente todos os elementos
estruturadores de sua visão-de-mundo: o conceito de Criação.
Ou, mais precisamente, o conceito de que não há nada que
não seja creatura, a não ser o próprio Creator.
E: que a "criaturalidade" (kreaturlichkeit) determina toda a estrutura
interna da criatura.
É
impossível compreender, por exemplo, o "aristotelismo" de Tomás
de Aquino ("aristotelismo": este é um termo extremamente questionável,
que só pode ser empregado com restrições!); não
se compreende nada do verdadeiro e mais profundo sentido deste voltar-se
de Tomás para Aristóteles, se não o entendermos a
partir desse conceito fundamental, levado às suas últimas
conseqüências, segundo o qual todas as coisas são criatura
- não somente a alma e o espírito, mas todas as coisas pertencentes
à realidade do mundo visível.
Por
outro lado, parece bastante plausível (e nem sequer digno de menção
especial), ou, pelo menos, nada surpreendente, que no pensamento de um
teólogo medieval, o conceito de Criação represente
também o centro de sua visão filosófica. O que, provavelmente,
poderia causar espanto, seria podermos estar, no caso, diante de um pressuposto
não-expresso, de uma opinião não-explicitamente
formulada (por ser evidente para o autor), que só pudesse ser lida,
por assim dizer, "nas entrelinhas". Pois não se supõe, antes,
ter Tomás desenvolvido uma detalhada e expressa doutrina da Criação?
Certamente
isto é verdadeiro e amplamente sabido. Entretanto não deixa
de ser verdade também o fato (muito pouco conhecido) de que o conceito
de Criação determina e perpassa a estrutura interna de praticamente
todos os conceitos fundamentais da doutrina filosófica do
ser em Tomás de Aquino. E tal fato não é (para
nós) evidente; mal o encontramos expressamente formulado; pertence
ao não-dito da doutrina do ser de Tomás de Aquino.
Este
elemento basilar pôde permanecer tão despercebido que mesmo
a explicitação - se assim o podemos dizer - "escolar" do
tomismo nem sequer chega a tocar no assunto . Certamente esses epígonos
escolares de Tomás são em grande parte condicionados pela
filosofia iluminista[16]:
o que se revela antes de tudo, precisamente por essa omissão, que
fatalmente acabaria por levar (e levou de fato) a sucessivos equívocos
de interpretação.
Por
exemplo, na interpretação do sentido de sentenças
como: "todo ser é bom", ou "todo ser é verdadeiro" - haverá
equívocos, creio eu, precisamente nos assim chamados conceitos "transcendentais"
(no sentido antigo), se não reconhecermos que tais afirmações
e conceitos não se referem em absoluto ao ser neutro, no sentido,
digamos, de uma mera "presença", um ens ut sic; não
se referem a um mundo de "objetos" sem rosto, mas remetem formalmente ao
ser enquanto criatura.
Que
as coisas são boas pelo simples fato de serem, e que esta bondade
é idêntica ao ser das coisas (e não, por assim dizer,
alguma propriedade a ser-lhes meramente acrescentada) significa ainda que
a palavra "verdadeiro" é também um autêntico sinônimo
para "ente". Portanto, o ente enquanto ente é que é
verdadeiro.
Não
se trata, pois, de, por assim dizer, "primeiro" dar-se o ser, para, "depois",
"além disso", o ser verdadeiro.
Tais
reflexões - que, sem dúvida, fazem parte do patrimônio
fundamental da doutrina clássica ocidental do ser, e que encontraram,
precisamente em Tomás, uma formulação genial - tais
reflexões, se não partirem do ser das coisas, formalmente
entendidas como criatura, simplesmente perdem todo o seu sal. Tornam-se
insossas, estéreis, tautológicas: precisamente por essa razão
é que, de fato, o esvaziamento foi o destino de todas aquelas fórmulas
- a ponto de Kant tê-las legítima e definitivamente afastado
do vocabulário filosófico em um famoso parágrafo de
sua Crítica à razão pura[17].
Com
isto atingimos nosso tema: a doutrina da verdade de Tomás de Aquino
só pode ser determinada em sua significação própria
e mais profunda, se, formalmente, colocarmos em jogo o conceito de Criação.
E é precisamente ao enlace do conceito de verdade com o "elemento
negativo" de incognoscibilidade e de mistério, que pretendemos dedicar-nos
aqui. Tal relação torna-se visível, precisamente se
tomarmos por base a idéia de que tudo o que pode ser objeto de conhecimento
humano, ou é criatura, ou é Criador.
Verdade
como ser-pensado
Naturalmente,
seria aqui impossível uma exposição da doutrina da
verdade de Tomás de Aquino em toda a sua extensão. E, além
do mais, ela não é requerida para que fique claro o tema
que estamos enfocando.
Nossa
exposição limita-se, basicamente, ao conceito de verdade
quanto às coisas-do-mundo, à veritas rerum, à
verdade "ontológica" - em contraposição ao que se
costuma definir como verdade "lógica" ou epistemológica.
Todavia, uma total dissociação desses dois conceitos de verdade,
como contrapostos, também não seria inteiramente acertada;
em Tomás, tais conceitos estão imediata e profundamente relacionados.
Por
exemplo, Tomás concordaria em termos, quanto àquela objeção
comum aos tempos modernos, continuamente reafirmada de Bacon a Kant: não
se pode chamar de verdadeira a realidade, mas, no sentido rigoroso e estrito,
apenas o pensado.
Retrucaria
ele que, sim, é plenamente oportuno considerar que somente o pensado
pode chamar-se, em sentido estrito, "verdadeiro"; mas: as coisas reais
são, de fato, algo pensado!
O
serem pensadas é profundamente essencial às coisas, prosseguiria
Tomás; elas são reais por serem pensadas. É
preciso, naturalmente, ser mais exato: elas são reais pelo fato
de serem criadoramente pensadas, isto é, por "serem-pensadas".
As
coisas têm a sua essência por "serem-pensadas": isto deve ser
entendido de modo extremamente literal, e não, em algum sentido
meramente "figurado". E, assim, porque as próprias coisas são
"pensamentos" e possuem, portanto, um "caráter verbal" (como diz
Guardini[18]),
por esta mesma razão é que elas podem, no mais preciso sentido
do uso corrente, serem chamadas "verdadeiras" - do mesmo modo que
o pensamento e o pensado.
Ao
que parece, Tomás nem ao menos conseguiu dissociar estas duas idéias:
a de que as coisas possuem um "quê", uma qüididade, um determinado
conteúdo essencial e a de que esta qüididade das coisas é
fruto de um pensamento projetador, pensante e criador.
Tal
associação é inteiramente estranha ao racionalismo
moderno. E por que não se poderia falar de "essência" das
plantas ou de "essência" do homem, sem a obrigação
de considerar, juntamente com isso, que essas essências são
pensadas? A partir do modo de pensar moderno não é possível
compreender por que somente considerando-as como "pensadas" tais
essências poderiam existir.
Incrivelmente,
porém, nos últimos tempos, a tese de Tomás tem encontrado
uma defesa - tão inesperada quanto veemente - por parte de nada
menos do que os princípios básicos do existencialismo contemporâneo.
A partir de Sartre, a partir de sua radical negação do conceito
de Criação (é ele quem afirma: "o existencialismo
não é senão um esforço para extrair
todas as conseqüências de uma posição atéia
coerente"[19])
- a partir daí, torna-se, de repente, novamente compreensível
que e como a doutrina da Criação representa de fato a razão
oculta, porém fundamental da metafísica clássica.
Se
quiséssemos dar aos pensamentos de Sartre e de Tomás uma
forma silogística, tornar-se-ia patente o fato de ambos partirem
exatamente da mesma "premissa", a saber: "Há uma essência
das coisas, na medida em que esta é pensada. É porque existe
o homem e sua inteligência capaz de projetar, planejar (design),
capaz, por exemplo, de 'conceber' um abridor de cartas, como de fato concebeu
- é por esta razão, e só por ela, que existe
uma `essência' de abridor de cartas. E assim, continua Sartre, já
que não há uma inteligência criadora, que pudesse
- aos seres humanos e a todas as coisas naturais - assim conceber, projetar,
planejar, dando-lhes previamente um conteúdo de significado, então
não há essência alguma nas coisas não-fabricadas,
nas coisas não-artificiais. Citarei literalmente: "Não há
essência do homem, porque não há Deus para concebê-la.'il
n'y a pas de nature humaine, puisqu'il n'y a pas de Dieu pour la concevoir'"[20].
Tomás,
por sua vez, afirma: porque (e na medida em que) Deus concebeu as coisas,
por isto (e nessa medida) é que elas possuem uma essência:
"Precisamente este fato, o de que a criatura possua uma substância
determinada e definida, mostra que ela provém de alguma origem.
Sua forma essencial... aponta para a Palavra (Verbum) d'Aquele que
a fez, tal como a estrutura de uma casa remete à concepção
de seu arquiteto"[21].
O
que há de comum entre Sartre e Tomás é, como se vê,
o pressuposto de que não se possa falar em essência das coisas,
a não ser que esta seja expressamente entendida enquanto criatura.
Mas,
precisamente ao caráter de "ser-pensado" das coisas - que se deve
ao Criador - é que Tomás se refere, quando fala da verdade,
como inerente a toda realidade.
As
coisas são inteligíveis porque são criaturas
A
sentença fundamental da doutrina de Tomás a respeito da verdade
das coisas encontra-se nas Quaestiones disputatae de veritate (I,
2) e diz o seguinte: res naturalis inter duos intellectus constituta
(est) - a realidade natural está situada, entre dois cognoscentes,
a saber, o intellectus divinus e o intellectus humanus.
A
partir desta "determinação espacial" da realidade (situada
entre a intelecção absolutamente criadora do conhecimento
de Deus, que pensa-o-ser e a intelecção imitativa do homem,
que se dirige, se orienta para o ser), estabelece-se a estrutura da realidade
total: como estrutura articulada entre "Projetador" e "realização
do projeto". Aqui Tomás emprega o conceito de mensura (medida)
em seu sentido originário, não-quantitativo - e presumivelmente
pitagórico - de determinação inteligível. Assim,
o pensamento criador de Deus "dá a medida" e "não é
medido" (mensurans non mensuratum); a realidade natural recebe a
medida e dá a medida (mensuratum et mensurans); o conhecimento
humano "recebe a medida" e não dá a medida (mensuratum
non mensurans). O conhecimento humano não dá a medida
ao menos no que se refere às coisas naturais, se bem que, sim, dá
a medida, no que se refere às res artificiales (este é
o ponto em que, para Tomás, a diferenciação entre
coisas criadas e coisas artificiais torna-se basilar).
De
acordo com esta dupla referência das coisas é que Tomás
desenvolve sua doutrina. Há, assim, um dúplice conceito de
"verdade das coisas": o primeiro afirma o ser-pensado por Deus; o segundo,
a inteligibilidade para o espírito humano.
Portanto,
a sentença: "as coisas são verdadeiras" significa, em primeiro
lugar: as coisas são criadoramente pensadas por Deus; e, em segundo
lugar: as coisas são, por si mesmas, acessíveis e apreensíveis
para o conhecimento humano.
Há,
naturalmente, entre o primeiro e o segundo conceito de verdade uma relação
de prioritas naturae, de hierarquia do ser. Esta prioridade tem
dois sentidos. Primeiro: não é possível apreender
o núcleo da expressão "verdade das coisas" - ele simplesmente
nos escapa - se nos recusarmos a pensar as coisas expressamente como criaturas,
projetadas pela intelecção de Deus, que pensa-o-ser[22].
Tal relação de prioridade, porém, significa em segundo
lugar ainda: o ser-pensado das coisas por Deus fundamenta a sua
inteligibilidade para o homem.
A
relação entre estas duas referências não é
como, digamos, a que se dá entre irmão mais velho e irmão
mais novo, mas sim como a de pai para filho: o primeiro é quem da
à existência o segundo. Que significa isto? Significa que
as coisas são inteligíveis para nós porque
foram pensadas por Deus. As coisas enquanto pensadas por Deus não
são dotadas apenas de sua essência (como que "exclusivamente
para si mesmas"), mas, enquanto pensadas por Deus, detêm também
um ser "para nós".
As
coisas têm a sua inteligibilidade, a sua luz interna, a sua luminosidade,
o seu caráter manifestativo, porque Deus as pensou, por esta razão
são essencialmente pensamento. A claridade e a luminosidade que
jorram do pensar criador de Deus para o interior das coisas, junto com
seu ser ("junto com seu ser", não!: como o seu próprio
ser!) - esta luz interna - e só ela - é o que torna as coisas
existentes apreensíveis ao intelecto humano.
Em
um comentário à Escritura[23],
Tomás afirma: "Uma coisa tem tanto de realidade quanto tem de luz"
e, em uma obra tardia, no comentário ao Liber de causis (I,
6), há uma sentença insólita, que formula o mesmo
pensamento como que num ditado místico: Ipsa actualitas rei est
quoddam lumen ipsius, "o próprio ser-em-ato das coisas é
sua própria luz" - ser-em-ato das coisas, entendido enquanto
ser criado! É esta luz, precisamente, o que torna as coisas visíveis
ao nosso olho. Em uma palavra: as coisas são inteligíveis
justamente por serem criadas!
Neste
ponto pode-se afirmar, em relação à fundamentação
do conhecimento, algo parecido ao que disse Sartre contra a filosofia do
século XVIII, com relação ao conceito "essência
das coisas"[24]:
não é possível prescindir do ser-pensado das coisas
por Deus e, no entanto, querer continuar admitindo a possibilidade de inteligibilidade
das coisas!
As
coisas são insondáveis, porque são criaturas
Segundo
a opinião de Tomás, portanto, pode-se falar de verdade, no
âmbito da realidade natural criada, em dois sentidos.
Em
primeiro lugar, pode-se estar falando da verdade das coisas, significando
primariamente que as coisas, enquanto criaturas correspondem ao
conhecimento criador projetante de Deus: nesta correspondência consiste
formalmente a verdade das coisas.
Em
segundo lugar, pode-se falar da verdade orientada para o conhecimento
(do homem), que é verdadeiro por meio da correspondência que
"recebe medida" da realidade - "pré"-conferida e objetiva - das
coisas.
A
estrutura de todo ser-criatura, situado essencialmente entre a intelecção
do ser-pensado pelo conhecimento de Deus e a intelecção imitativa
do homem - um pensamento inexaurível!
Entre
estas duas correspondências (a do pensamento para com a realidade,
de um lado, e a da realidade para com o Pensamento, de outro), ambas significando,
ainda que em sentido diverso, "verdade" enquanto adequação
- entre estas duas correspondências existe, porém, uma diferença
fundamental: a primeira pode tornar-se objeto de conhecimento humano, enquanto
a segunda não; a primeira correspondência é inteligível
ao homem, enquanto a segunda não.
O
homem pode perfeitamente conhecer não apenas as coisas, mas também
a relação de correspondência existente entre as coisas
e o seu próprio conceito das coisas. Isto é, o homem tem
o poder de, para além de uma ingênua constatação
das coisas, reconhecê-las com juízo e reflexão. Em
outras palavras, o conhecimento humano não tem apenas o poder de
ser verdadeiro, mas ainda o de reconhecimento da verdade (I, 16, 2).
A
correspondência, que perfaz, de modo primário, a essência
da verdade das coisas - a correspondência entre a realidade natural
e o conhecimento arquetípico de Deus - esta correspondência
não nos é possível conhecer formalmente!
Temos
certamente a potência de conhecimento das coisas, contudo não
nos é possível conhecer formalmente a sua verdade;
conhecemos a imagem imitativa (Nachbild), mas não a sua correspondência
para com o arquétipo (Urbild): a relação existente
entre o ser-pensado e o seu projeto. Tal correspondência - em que,
repetimos, consiste de modo primário a verdade formal- não
nos é dado conhecer. É este, portanto, o ponto no qual se
mostra a vinculação existente entre a verdade e a incognoscibilidade
das coisas. Contudo, este pensamento carece de maior precisão.
Quanto
ao uso corrente, incognoscibilidade admite múltiplos sentidos,
no mínimo dois. Este conceito pode significar: há
algo que é por si mesmo acessível ao conhecimento, mas determinado
intelecto não consegue apreendê-lo, porque seu poder cognoscitivo
não é suficientemente penetrante. É neste sentido
que se fala de objetos que não sejam apreensíveis "a olho
nu". Refere-se isto antes a uma falibilidade do olho do que a uma peculiaridade
concreta do objeto: as estrelas, de que não nos apercebemos, são,
"por si mesmas", perfeitamente visíveis! Incognoscibilidade, assim
entendida, quer dizer: a potência de conhecimento não é
suficiente para realizar, para ativar o potencial de cognoscibilidade,
que certamente existe objetivamente.
Mas
incognoscibilidade pode também significar algo diferente,
a saber: que uma tal cognoscibilidade não se dá em si; que
nem sequer há algo a ser conhecido; que não apenas
o poder de apreensão e penetração da parte de um determinado
sujeito cognoscente seja insuficiente, mas sim, que não exista,
por parte do objeto, qualquer cognoscibilidade.
Incognoscibilidade,
neste sentido, incognoscibilidade de uma realidade em si mesma - isto é
para Tomás inteiramente inconcebível. Dado que todo ente
é criatura, ou seja, pensado-por-Deus, por isto mesmo todo ente
é, em si mesmo, luz, claridade, abertura - e isto devido precisamente
por ser! Incognoscibilidade, portanto, jamais significará para
Tomás: que exista algo que fosse inacessível ou opaco em
si mesmo, mas apenas: superabundância de luz, que uma dada potência
de conhecimento finita não possa exauri-la; isto ultrapassaria o
seu poder de captação e escaparia ao seu alcance apreensivo.
É
neste último sentido, portanto, que se está falando aqui
em incognoscibilidade. Esta faz parte integrante do conceito de verdade
das coisas (ou seja, sua cognoscibilidade não possa ser exaurida
por uma potência cognoscitiva finita). Isto é conseqüência
da criaturalidade, isto é, a própria causa (infinita) de
sua cognoscibilidade tem o efeito necessário da in-cognoscibilidade
(para o finito). Contemplemos isto mais de perto.
"As
coisas são verdadeiras" significa primariamente: as coisas são
pensadas por Deus. Esta sentença seria fundamentalmente desvirtuada,
se a quiséssemos tomar como informação unicamente
a respeito de Deus, como mera constatação de um agir
divino que se dirige às coisas. Não! Está-se afirmando
algo sobre a estrutura das coisas. Está-se expressando, de
modo diferente, o pensamento de Agostinho[25],
de que as coisas são, porque Deus as vê (enquanto nós
vemos as coisas, porque elas são). Afirma-se que o ser e a essência
das coisas consistam no seu caráter-de-ser-pensado pelo Criador.
Verdade, como já se disse, é um nome do ser, é
um sinônimo de real; ens et verum convertuntur; dizer "algo
real" é o mesmo que dizer "ser-pensado por Deus".
É
da essência de todos os entes (enquanto criatura), o serem "formados-segundo"
(nachgeformt), de acordo com um arquétipo, que reside no,
conhecimento absolutamente criacional de Deus. Creatura in Deo est creatrix
essentia, a criatura é, em Deus, essência criadora; assim
está escrito no Comentário a João (I, 2) de
Tomás e na Summa Theologica: "Todo o real possui a verdade
de sua essência, na medida em que re-produz o saber de Deus" (I,
14, 12, ad 3).
Como
já dissemos, é evidente que Tomás - ao tratar da
verdade das coisas (ou mesmo da essência das coisas)
- não podia, de modo algum, ignorar ou "deixar de lado" esta
relação de correspondência entre as coisas e suas imagens
arquetípicas divinas. Isto se manifesta, por exemplo, pelo fato
de ele a ter conhecido a partir da leitura de textos estranhos, nos quais
nós seríamos incapazes de descobrir qualquer vestígio
disto (trata-se aqui de um daqueles "saltos" argumentativos ou "desníveis"
no fluxo do pensamento, nos quais se revela, como que por entre uma "fenda"
na estrutura, o não-dito de sua doutrina).
No
segundo artigo da primeira Quaestio disputata de veritate, São
Tomás formula o conceito primário de verdade das coisas:
"O real é chamado verdadeiro na medida em que realiza aquilo para
o que foi ordenado pelo espírito cognoscente de Deus". Em outras
palavras: o verdadeiro é o real, na medida em que imita a imagem
arquetípica do conhecimento divino. E prossegue Tomás: Isto
se torna evidente - sicut patet -, por uma famosa definição
de Avicena - definição, entretanto, na qual para o nosso
entender, não se diz nada sobre o assunto!
Mas,
o que diz então, essa definição de verdade de Avicena?
Trata-se de uma citação quase clássica na Idade Média:
"A verdade de uma coisa é a característica própria
de seu ser, que lhe foi dada como propriedade constante"[26].
E
com esta sentença, assim diz Tomás, evidencia-se a
tese de que a verdade das coisas reside em serem pensadas por Deus! Nunca
nos ocorreria, a nós, perceber aqui qualquer relação.
Esta manifesta "brecha" na argumentação certamente só
poderá ser entendida no sentido de que Tomás simplesmente
não pode deixar de associar a idéia de que as coisas possuem
um "quê" - uma qüididade de conteúdo determinado - à
idéia de que esta essência das coisas seja o fruto de uma
intelecção planejante criadora.
Retomemos
agora o caminho para a nossa própria questão. A relação
de correspondência existente entre a imagem arquetípica em
Deus e a imagem criada que a segue - e nisto consiste formal e primariamente
a verdade das coisas - não poderá jamais, como dizíamos,
ser diretamente apreendida pelo nosso olho; não podemos alcançar
um ponto de vista, a partir do qual nos seja possível comparar a
imagem arquetípica com a sua imagem imitativa; somos simplesmente
incapazes de assistir, por assim dizer, como espectadores à emanação
das coisas "do olho de Deus".
Há,
porém, uma conseqüência que decorre desse fato:
o nosso intelecto, quando inquire a respeito da essência das coisas,
mesmo as mais ínfimas e "mais simples", ingressa num caminho, por
princípio, interminável. A razão disto, portanto,
é a criaturalidade das coisas; a luminosidade interna do ser,
tem
sua origem arquetípica na infinita abundância de luz da intelecção
divina. Esta, portanto, é a realidade subjacente ao conceito de
verdade do ser, como o formulou Tomás. Mas sua profundidade torna-se
visível somente quando esta conexão - evidente para Tomás
- com o conceito de criação é reconhecida.
É
neste conceito de verdade, assim entendido, que reside o legítimo
contexto e origem do elemento de incognoscibilidade, do elemento "negativo".
Limitamo-nos
a falar apenas da philosophia negativa - embora Tomás tenha
formulado também os princípios de uma theologia negativa.
Certamente este traço também não aparece com clareza
nas interpretações usuais; freqüentemente é até
ocultado. Será raro encontrar menção do fato de a
discussão sobre Deus da Summa Theologica[27]
começar com a sentença: "Não podemos saber
o que Deus é, mas sim, o que Ele não é". Não
pude encontrar um só compêndio de filosofia tomista, no qual
se tenha dado espaço àquele pensamento, expresso por Tomás
em seu comentário ao De Trinitate de Boécio[28]:
o de que há três graus do conhecimento humano de Deus. Deles,
o mais fraco é o que reconhece Deus na obra da criação;
o segundo é o que O reconhece refletido nos seres espirituais e
o estágio superior reconhece-O como o Desconhecido: tamquam ignotum!
E tampouco encontra-se aquela sentença das Quaestiones disputatae:
"Este é o máximo grau de conhecimento humano de Deus: saber
que não O conhecemos", quod (homo) sciat se Deum nescire[29].
E,
quanto ao elemento negativo da philosophia de Tomás, encontramos
aquela sentença sobre o filósofo, cuja aplicação
ao conhecimento não é capaz sequer de esgotar a essência
de uma única mosca. Sentença que, embora esteja escrita em
tom quase coloquial, num comentário ao Symbolum Apostolicum[30],
guarda uma relação muito íntima com diversas outras
afirmações semelhantes. Algumas delas são espantosamente
"negativas" como, por exemplo a seguinte: Rerum essentiae sunt nobis
ignotae; "as essências das coisas nos são desconhecidas"[31].
E esta formulação não é, de modo algum, tão
incomum e extraordinária, quanto poderia parecer à primeira
vista. Seria facilmente possível equipará-la (a partir da
Summa Theologica, da Summa contra Gentes, dos Comentários
a Aristóteles, das Quaestiones disputatae) a uma dúzia
de frases semelhantes: Principia essentialia rerum sunt nobis
ignota[32];
formae substantiales per se ipsas sunt ignotae[33];
differentiae essentiales sunt nobis ignotae[34].
Todas elas afirmam que os "princípios da essência", as "formas
substanciais", as "diferenças essenciais" das coisas, não
são conhecidas.
Segundo
Tomás, esta seria também a razão, pela qual não
temos a capacidade de atribuir um nome essencial às coisas; precisamos
antes extraí-los a partir do que é externo e derivado (fenômeno
para o qual Tomás, muitas vezes, cita o exemplo daquelas disparatadas
etimologias medievais - pelas quais o termo "lapis", por exemplo,
derivaria de "laedere pedem")[35].
Não
somente o próprio Deus, mas também as coisas em si possuem
um "nome eterno" que, ao homem, não é dado pronunciar. Isto
tem um sentido bem preciso e não, de modo algum, um sentido, por
assim dizer, "poético".
Por
que será, pergunta-se Tomás, certa vez, que nos é
impossível conhecer plenamente a Deus, a partir da criação?
Sua resposta tem duas partes, sendo que a segunda é a que mais nos
interessa. Primeira parte da resposta: a criação necessariamente
reflete a Deus de maneira apenas imperfeita. Segunda parte: dada nossa
"ignorância" e o embotamento de nosso intelecto (imbecillitas
intellectus nostri), não somos capazes de ler nem mesmo aquelas
informações que as coisas realmente contêm a respeito
de Deus.
Para
se entender o peso desta afirmação, é preciso considerar
que, de acordo com Tomás, o modo peculiar da imitação
da perfeição divina em cada coisa é precisamente o
que perfaz a essência peculiar de seu ser: "Cada criatura
possui a sua espécie própria enquanto, de algum modo, participa
da imagem da essência divina. E, portanto, Deus, ao conhecer o seu
próprio Ser como sendo assim imitável por esta determinada
criatura (ut sic imitabilem a tali creatura), Ele conhece a Sua
essência como a razão de ser e a idéia contida nesta
criatura" (I, 15, 2). Este pensamento, que aponta para uma problemática,
por sua vez, inteiramente nova e complexa, está muito precisamente
relacionado ao nosso assunto. Não se está afirmando nada
menos que isto: a essência das coisas em sua profundidade nos é
permanentemente inacessível, em virtude de nossa incapacidade de
apreender inteiramente a imitação da imagem arquetípica
divina enquanto imagem e semelhança de Deus[36].
Uma
resposta assim, dupliforme, tem certamente uma estrutura dialética
(que reproduz a estrutura da própria criatura) a qual tem
a sua origem, per definitionem, simultaneamente, em Deus e no nada.
Tomás não se limita a afirmar somente que a realidade da
existência de algo é a sua própria luz. Vai além:
creatura est tenebra inquantum est ex nihilo, "a criatura é
treva, na medida em que provém do nada" - esta sentença não
está expressa em Heidegger, mas nas Quaestiones disputatae de
veritate (18, 2 ad 5) de Tomás. Aliás, a resposta àquela
questão: "por que não é dado ao homem conhecer Deus
inteiramente a partir das coisas criadas?", possui esta mesma estrutura
de "resistência passiva".
O
que está dito aqui exatamente? Diz-se que, por meio de sua essência,
as coisas revelam Deus de modo apenas imperfeito. Por quê? Porque
as coisas são criatura e à criatura é impossível
exprimir ou proferir o Criador perfeitamente. Contudo, assim prossegue
a sua resposta, a superabundância de luz - até mesmo desta
imperfeita manifestação - já excede todo entendimento
humano. Por quê? Porque também o homem é criatura,
mas principalmente porque as coisas remetem em sua essência ao projeto
divino, o que, por sua vez, significa: porque as coisas são criaturas.
A
Estrutura de esperança do conhecimento criatural
Falamos
já do "elemento negativo" da filosofia de Tomás. E mostramos
que (e porque) esta formulação é realmente susceptível
de mal-entendidos e que requer uma compreensão mais precisa e quase
que uma correção.
Em
todo caso, o fator "negativo" seguramente não consiste na suposição
de que o conhecimento humano não atinja o ser das coisas. Intellectus...
penetrat usque ad rei essentiam, "a inteligência penetra até
a essência das coisas": esta sentença[37]
permanece válida em São Tomás - apesar da outra afirmação
de que o esforço cognoscente dos filósofos não é
capaz de apreender a essência sequer de uma mosca. Estes dois fatores
são correlatos. O fato de que o intelecto atinge as coisas, manifesta-se
em que ele se precipita em insondáveis profundezas de luz! Porque
o espírito atinge o ser das coisas, experimenta sua inesgotabilidade!
Nicolau de Cusa[38]
exprimiu essa realidade em sua interpretação do "sei que
nada sei" socrático: somente àquele que, vendo, tocou a luz
com os olhos, está reservado experimentar que a claridade do sol
vai além do poder de apreensão da visão.
Não
se pode, de modo algum, falar de agnosticismo em Tomás; e os neo-escolásticos
têm toda razão em enfatizar este aspecto. Acredito, contudo,
não ser possível tornar explícita a verdadeira razão
para esta realidade, se não colocamos em jogo, formalmente, o conceito
de criação, isto é, se não se falar de estrutura
intrínseca da coisa, enquanto criatura.
Esta
estrutura significa - dado seu caráter de ser-pensado pelo Criador
- que as coisas possuem tanto a luminosidade (caráter manifestativo
de seu ser) como também, ao mesmo tempo, sua inesgotabilidade e
seu caráter "inexaurível": sua cognoscibilidade, bem como
sua não-cognoscibilidade.
Sem
remontar a este fundamento, será impossível, ao que me parece,
mostrar por que o "elemento negativo" da filosofia de Tomás de Aquino
nada tem de agnosticismo. E todo aquele que tenta dar conta disto, sem
recorrer a tal conceito, como mostra o exemplo das sistêmicas experiências
neo-escolásticas, incorrerá necessariamente no perigo de
interpretar Tomás como racionalista, isto é, de incompreendê-lo
ainda mais.
Talvez
pudéssemos afirmar que, na doutrina de Tomás, a estrutura
de esperança da existência humana se exprime como a de um
ser cognoscente de estrutura essencialmente não-fixável:
em seu conhecer não se dá uma plena apreensão, um
cabal "ter" conhecimento de algo; mas também não um completo
"não-ter". O que, sim, se dá é um não-ter-ainda!
O
cognoscente é visto como viator, alguém que está
a caminho. Isto significa, por um lado: os seus passos têm sentido:
não são, por princípio, vãos, mas aproximam-se
de um objetivo. Isto, porém, não pode ser pensado, sem o
outro elemento: enquanto durar para o homem, na condição
de ser existente, o "estar a caminho", permanecerá igualmente infindável
o seu caminho de conhecimento. E esta estrutura de esperança do
que indaga pelo ser das coisas, do conhecimento filosófico, funda-se,
afirmemo-lo uma vez mais, no fato de o mundo ser criatura; o mundo
e o próprio ser humano cognoscente!
Mas,
dado que a esperança está mais próxima do sim
do que do não, deve-se, portanto, desse mesmo modo, encarar
também o elemento negativo da filosofia de Tomás, que nos
propusemos explicitar. Ou seja, devemos encarar a negação
em relação ao pano de fundo de uma afirmação
mais abrangente. É certo que o elemento de inescrutabilidade do
ser das coisas está compreendido no conceito de verdade do ser;
o sentido disto, entretanto, é tão estranho a qualquer idéia
de objetiva inacessibilidade, impenetrabilidade ou escuridão das
coisas, que pelo contrário até autoriza a dar voz a este
aparente paradoxo: as coisas são incognoscíveis ao homem
em suas últimas profundezas, por serem excessivamente cognoscíveis.
Assim,
o próprio Tomás também recorre àquela célebre
sentença aristotélica[39]
a respeito dos olhos da ave noturna, incapazes de perceber precisamente
aquilo que é luminoso (da mesma forma comportar-se-ia o intelecto
humano em relação àquelas coisas que se manifestam
com máxima evidência). Tomás exprimiu a asserção
contida nesta frase, com a qual, aliás, concorda inteiramente, pelas
seguintes admiráveis palavras[40]:
Solem etsi non videat oculus nycticoracis, videt tamen eum oculus aquilae,
"ainda que o olho da ave noturna não veja o sol, o olho da águia,
sim, o vê".
6.
O filosofar cristão
Tomás,
como aliás é típico do pensamento medieval até
a sua época, não é puramente filosófico, mas
sim, numa interpenetração profunda e espontânea, filosófico-teológico.
Só tardiamente surgirá um pensamento filosófico que
se pretenda alheio à Teologia; esse afã de Voraussetzungslosigkeit,
de uma asséptica independência da Teologia, é simplesmente
impensável para pensadores como Tomás. A distinção
não implica em separação: filosofia e teologia são
diferentes, mas inseparáveis: em Tomás, a filosofia, mais
do que ancilla é sponsa theologiae... Para o problema
da filosofia cristã, reproduzimos a seguir trechos de uma conferência
de Pieper em que se discute (do ponto de vista contemporâneo) não
só a legitimidade de uma filosofia cristã, mas - numa inversão
que pode parecer surpreendente - também a problematicidade de uma
filosofia não-cristã. Trata-se de "O caráter
problemático de uma filosofia não-cristã"[41].
"Uma
filosofia cristã é um círculo quadrado", uma contradição
em termos. Esta agressiva sentença de Martin Heidegger, evidentemente
determinada mais por um impulso passional do que por um juízo ponderado,
provavelmente não encontrará assentimento nem mesmo entre
aqueles que admitem tratar-se de assunto extremamente problemático.
O mais recomendável é evitar totalmente a equívoca
expressão "filosofia cristã" e falar, em vez disso, do "ato
filosófico" e da "pessoa que filosofa".
Sob
este ponto de vista, atrevo-me a afirmar - pura e simplesmente invertendo
a sentença de Heidegger - que qualquer pessoa que, pela fé,
admita como verdadeira a mensagem cristã, deixaria de praticar seriamente
o filosofar no exato instante em que ignorasse deliberadamente os dados
provenientes do âmbito supra-racional. (...)
Mas,
aqui se trata do caráter problemático, do dilema, quase inevitável,
que um filosofar expressamente não-cristão enfrenta. Evidentemente,
não nos referiremos aqui às concepções de ser,
provenientes do mundo "não-tocado" pelo cristianismo, como por exemplo
as do budismo ou do hinduísmo. Nossa tese refere-se unicamente à
interpretação racionalista-secular - e, portanto, assumida
e decididamente não-cristã - do mundo que pretende considerar-se
"filosofia" no mesmo sentido em que esse conceito era entendido pelos fundadores
da tradição ocidental de pensamento, como, por exemplo, Platão
e Aristóteles.
Nesse
conceito tradicional de filosofia, o sentido antes de mais nada literal
da palavra grega philosophia é tomado, sobretudo por Platão,
de modo muito mais originário do que ocorre usualmente. Platão
toma estritamente ao pé da letra um dito de Pitágoras segundo
o qual só Deus seria sábio (sophos), enquanto o homem,
na melhor das hipóteses, é somente alguém que busca
amorosamente a sabedoria (um philo-sophos). A afirmação
de Sócrates, em O Banquete, de que nenhum dos deuses filosofa,
não passa afinal de uma outra forma de exprimir o mesmo pensamento.
E não é somente um Platão - a quem Kant chama "o pai
de todos os sonhadores filosóficos" -, que faz essa afirmação;
também um realista como Aristóteles vem a dizer o mesmo.
Aristóteles está convencido de que a pergunta sobre "Que
é isto? Algo real?" - formulada, por ele, de modo resumido e compacto,
em apenas três sílabas: ti to on? -, não é
apenas uma questão que se coloca "desde sempre, hoje, e para
sempre"; ela estaria almejando, para além disto, como diz Aristóteles,
uma resposta, conhecida unicamente por Deus.
As
questões verdadeiramente filosóficas (como por exemplo: "O
que é o conhecer?", "O que ocorre, do ponto de vista da totalidade,
quando morre um ser humano?") impelem-nos a um confronto com o todo da
realidade e da existência. Quem as formula vê-se, com efeito,
obrigado a falar "de Deus e do mundo", e, isto é, precisamente,
o que marca a diferença entre a filosofia e a ciência. O médico
que investiga a causa de uma doença já não está
lidando com o mundo como um todo; não tem necessidade de falar "de
Deus e do mundo"; e, aliás, nem ao menos está autorizado
a fazê-lo. Se, por outro lado, ocorre-lhe examinar o sentido - o
que "em si" e em "última instância" significa a doença
-, então não poderia estar à altura desse objeto sem,
ao mesmo tempo, refletir sobre a natureza humana em relação
à realidade como um todo.
Também
no Banquete de Platão, cujo tema é o Eros,
ocorre o seguinte: depois de terem falado o sociólogo, o psicólogo,
o biólogo, alguém se levanta e diz que não se pode
apreender o verdadeiro sentido do Eros sem considerar a natureza
da alma e o que lhe sobreveio, nos primórdios, em confronto com
os deuses. Passa então a contar o mito da perfeição
originária do homem, falando a respeito da sua culpa e da sua punição.
Em resumo, narra a história do paraíso perdido, interpretando
Eros como o anelo pela santa forma primitiva. Ainda em Platão:
no diálogo Menon, quando se torna evidente que já
não é possível avançar no caminho da argumentação
racional, Sócrates afirma que a partir deste momento, se torna necessário
apoiar-se naqueles "que são sábios nas coisas divinas". Mais
uma vez, portanto, volta-se para um dado proveniente de uma fonte sobre-humana,
cuja interpretação pode, de modo não impróprio,
ser denominada Teologia.
Mesmo
a reflexão crítica e fria da metafísica aristotélica
não exclui de modo algum tais pensamentos. Um dos resultados mais
surpreendentes da fundamental análise histórica de Werner
Jaeger é a seguinte constatação: também a doutrina
aristotélica do ser estaria, em última análise, determinada
pelo credo ut intelligam, pelo pressuposto anterior de uma fé
que transcende o pensamento e é seu pressuposto.
Enquanto,
pois, não se entenda por filosofia algo inteiramente diverso do
que significava o conceito em sua primeira definição no Ocidente,
permanecerá implícita e inerente à filosofia a exigência
de um dado anterior, supra-racional. É natural que se coloque, precisamente
neste ponto, a questão da possibilidade de que uma interpretação
puramente racionalista da existência - neste sentido também
absoluta e decididamente não-cristã -, possa, legitimamente,
ser chamada de filosofia. Com efeito, tudo aquilo que, na concepção
de mundo platônica, é chamado "sabedoria dos antigos", "conhecimento
das coisas divinas", "tradição santa, oriunda de uma fonte
divina por intermédio de um desconhecido Prometeu" - tudo isto encontra-se
preservado (ainda que depurado, elevado e, ao mesmo tempo, infinitamente
ultrapassado) na mensagem anunciada pelo Logos divino, que o cristão
crê e venera como verdade intangível.
Talvez
possam objetar-me que seria absurdo afirmar que, na nossa civilização
ocidental, não haja nenhuma filosofia, que possa ser, ao mesmo tempo,
indubitavelmente não-cristã e continuar a chamar-se legitimamente
"filosofia". Sobre isto, gostaria de fazer duas considerações:
Em
primeiro lugar, existem
indubitavelmente formas modernas de "filosofia" que não têm
nenhuma pretensão de ser filosofia naquele sentido originário;
na realidade, trata-se, no caso, de ciência, ou scientific philosophy,
cujo interesse e compreensão estão reservados unicamente
a especialistas e técnicos, como, por exemplo, a lógica matemática
ou a análise lingüística.
Em
segundo lugar: uma
filosofia que se pretendesse "não-cristã" de um modo inteiramente
conseqüente, na qual simplesmente não fosse mais possível
detectar qualquer elemento da teologia, é, no mundo ocidental, um
fenômeno extremamente raro. Assim, Descartes responde à questão
central da dúvida metódica - "Como podemos ter certeza de
não estar apenas sonhando?" - apelando para a veracidade de Deus,
que não poderia, de forma alguma, enganar-nos. Ou seja, Descartes
apóia-se explicitamente na própria tradição
da fé, que, no entanto, pretendia excluir por princípio.
E quando Immanuel Kant, no seu ensaio sobre a religião, cita a Bíblia
mais de setenta vezes, é evidente que não permanece - conforme
havia anunciado programaticamente no título da sua obra - "dentro
dos limites da razão pura". Evidentemente, não podemos só
por isso falar numa "filosofia cristã"; contudo, é igualmente
evidente que não se pode considerar esse tratado como totalmente
"não-cristão".
Contemplemos,
finalmente, o caso de Jean-Paul Sartre, cuja filosofia existencialista
pretende ser a forma mais radical de filosofia não-cristã:
teria sido absolutamente incompreensível para um nihilista pré-cristão,
como por exemplo Górgias, o sofista antigo. É preciso ser
cristão para apreender o sentido da seguinte sentença: "Não
há natureza humana, porque não há Deus para concebê-la".
E
noutra obra, Über das Ende der Zeit, tratando do tema da fundamentação
do conhecimento, Pieper oferece um contundente questionamento: "Que é
o conhecimento em si e em última análise? A reflexão
filosófica sobre esta questão, sua discussão tem,
é verdade, um fundamento experimental incontestável (a experiência
das sensações, do pensamento, etc.). Mas se eu a levo mais
adiante, necessariamente chegará um momento em que deva considerar
a realidade objetiva de um lado e a faculdade humana de conhecer de outro;
ser-me-á necessário, em certo momento, colocar a questão
assim formulada por Heidegger: 'De onde a enunciação representativa
toma a orientação de se dirigir para o objeto, e de se orientar
retamente?' (Vom Wesen der Wahrheit, Frankfurt, 1943, p. 13); de
onde o sujeito cognoscente tem 'a orientação para o que é'?
(ibidem, p. 21) e onde se encontra o fundamento interior dessa orientação
do conhecimento para o ser? Sem dúvida, esta questão se situa
no centro, na raiz de toda teoria filosófica do ser: e é
uma das formas sob as que aparece, a um certo momento, o problema da natureza
do conbecimento (...) Ora, é evidente que esta questão que
diz respeito aos fundamentos do conhecimento ('de onde o conhecimento tira
sua orientação para o ente?') não pode receber resposta
à margem de uma afirmação teológica"[42].
7.
O método de Tomás: fenômeno e linguagem
Tomás
dirige sua busca filosófico-teológica ao ser em abertura
máxima para a totalidade. Tal como Platão, ele, como filósofo
não está preocupado em saber se o rei de Atenas é
feliz ou não, mas em saber o que, afinal de contas, a felicidade
é. O que, em si e em última instância, é
isto? O que é tal ente sob todo ponto de vista concebível?
Mas
como atingir o ser? Nada mais distante de sua concepção filosófica
do que um discurso apriorístico: Tomás parte da experiência,
do fenômeno, do ser tal como se manifesta.
Daí
que dê especial relevo metodológico às formas de agir
humano e à linguagem enquanto portadores de notícias sobre
o ser. Destaquemos brevemente um aspecto de seu modo de filosofar: a atenção
dada à linguagem comum. Tomás tem um enorme respeito pela
linguagem do povo. Multitudinis usus, quem in rebus nominandis sequendum,
o uso comum do povo que deve ser seguido... - assim começa ele a
Suma contra os gentios. A linguagem comum é por ele considerada
depositária de sabedoria, quando devidamente trabalhada, garimpada.
Este
é um dos tantos pontos que perfazem a sintonia da Filosofia de Tomás
com o bom senso do povo. Aproveitando-nos de uma metáfora de que
o próprio Tomás freqüentemente se vale - a comparação
entre o sábio e o arquiteto -, diríamos que o verdadeiro
filosofar está para a sabedoria do homem da rua assim como o saber
do bom arquiteto para a adequada construção da casa. O cidadão
comum não estudou arquitetura, mas sabe que não lhe serve
uma casa em que, por exemplo, a porta da rua se abre diretamente para um
banheiro, e em que este se comunique sem divisórias com a cozinha;
em que a adega esteja a céu aberto no terraço, e todos os
disparates que possam passar pela "criativa" mente de um arquiteto desvairado.
É preciso dizer que, como não faltam arquitetos destes, também
não faltam na história filósofos "criativos".
Já
a filosofia de Tomás assemelha-se ao trabalho do sábio arquiteto,
que aplica a sua competência profissional e o seu senso artístico
para realizar aquilo que, afinal de contas, coincide com o bom senso do
homem comum: cozinha é cozinha; banheiro é banheiro! Tudo
de acordo com a realidade humana.
Tomás
procura, pois, a realidade do homem, a experiência sobre a realidade
do homem. A sua concepção apóia-se no fato (bastante
empírico) de que há na vida ocasiões especiais em
que a realidade perde seu rosto rotineiro e nos apresenta uma face nova:
de repente descobrimos o que é ou o que significa para nós
algo ou alguém. Daí que afirme, com Aristóteles e
Platão, que a admiração é o princípio
do filosofar.
Mas
essas experiências especialmente densas que o homem tem consigo mesmo
e com o mundo não têm brilho duradouro na consciência
reflexiva: logo se desfazem, escapam-nos. Subjaz a toda a antropologia
de Tomás aquela constatação, axiomática para
os antigos: o homem é um ser que esquece! No entanto, essas experiências
não chegam a ser totalmente aniquiladas; escondem-se, condensam-se,
transformam-se, depositam-se... principalmente na linguagem. E o filosofar
é, em boa medida, uma tentativa de lembrar, de resgatar os grandes
insights de sabedoria que se encontram encerrados na linguagem comum.
Por
isso, Tomás sempre está atento à sabedoria escondida
na linguagem do povo, buscando nela a transparência. Um exemplo entre
tantos: já na primeira questão da Suma Teológica,
ao procurar caracterizar o que é a sabedoria, Tomás explica
que a sabedoria não deve ser entendida somente como conhecimento
que advém do frio estudo, mas como um saber que se experimenta e
saboreia. Sempre muito atento aos fenômenos da linguagem, à
fala do povo, como fonte de profundas descobertas filosóficas, encanta-se
com o fato - para ele experiência pessoal vivida - de que em latim
sapere signifique tanto saber como saborear[43].
Esta coincidência de significados na linguagem do povo - Tomás
bem o "sabe" - não é casual: se há quem saiba porque
estudou, verdadeiramente sábio, porém, é aquele que
sabe porque saboreou...
Mas
a linguagem tal como o conhecimento não é capaz de abarcar
de uma só vez a multifacética complexidade do real; sobretudo
quando se trata das realidades mais profundas. Daí Tomás
afirmar que cada língua acentua um particular aspecto da realidade:
"Diversae linguae habent diversum modum loquendi" (I,
39, 3 ad 2).
Um
exemplo, o da realidade humana da gratidão, referido às línguas
modernas, poderá ajudar-nos a compreender a fecundidade metodológica
dessa sentença. A gratidão é uma realidade humana
complexa; daí decorre o fato de que sua expressão verbal
seja, em cada língua, fragmentária, acentuando-se este ou
aquele aspecto: "A gratidão, ensina Tomás, compõe-se
de diversos graus: o primeiro consiste em reconhecer o benefício
recebido; o segundo, em louvar e dar graças; o terceiro, em retribuir
etc." (II-II, 107, 2). Este ensinamento, que por sinal está totalmente
de acordo com o bom senso do homem comum, é corroborado pelos diversos
modos que as diversas línguas têm para agradecer: não
por acaso, to thank (ou danken) são originariamente
o mesmo que to think (denken), pois agradecer é pensar,
considerar, re-conhecer, de onde decorre também o reconnaissance
francês; ou o caráter não-devido do "favor", gratuito,
gracias, grazie, que me deixa vinculado (ob-ligatus), obrigado,
"muito obrigado" a retribuir. Tomás, agudo observador dos conteúdos
subjacentes ao falar do povo, faz notar a existência de ingratidão[44]
quando se pensa (ou se diz): Ministerium est! "Não fez mais
do que a sua obrigação!" (II-II,
106, 3 ad 4).
8.
O Verbo, o falar e a palavra[45]
Para
Tomás, o falar de Deus guarda semelhanças com o falar humano
(ou vice-versa) e vale-se do mesmo instrumental teórico para tratar
do falar humano e do divino.
Tomás
distingue, por exemplo, sonus de vox: vox não
é um som qualquer, mas o som animado, que só se dá
na medida em que se dê alma: voz, boca e hálito: "nenhum ente
sem alma tem voz" (In De Anima 2, 18, 467). E no âmbito da
vox situa-se a palavra (verbum). A palavra é uma realização
especial do signo (signum), que, por sua vez, é "aquilo pelo
que alguém chega a conhecer algo de outro" (III, 60, 4). O signo
leva, pois, o sujeito a um conhecimento novo - a conhecer algo diferente
do próprio signo. Naturalmente, há uma infinita variedade
de signos: desde a fumaça, signo que indica o lugar e a intensidade
do fogo, à bandeira branca da rendição.
A
palavra também é um signo: vox, quae non est significativa,
verbum dici non potest (I, 34, 1), o som animado só é
palavra se for significativo. Próprio da palavra é a significatio;
não, porém, uma significação qualquer, mas
aquela que pressupõe sempre um conceito; a palavra só se
dá onde há conhecimento intelectual. Daí que Tomás
afirme: "Sendo três as naturezas intelectuais - a humana, a angélica
e a divina -, três são as palavras" (De differentia,
III, 1).
Locutio
est proprium opus rationis
(I, 91, 3 ad 3); "falar - diz Tomás - é operação
própria da inteligência". Ora, entre a realidade designada
pela linguagem e o som da palavra proferida há um terceiro elemento,
essencial na linguagem, que é o conceptus, o conceito, a
palavra interior (verbum interius), que se forma no espírito
de quem fala e que se exterioriza pela linguagem, que constitui seu signo
audível (o conceito, por sua vez, tem sua origem na realidade).
Mas, se a palavra sonora é um signo convencional (a água
pode chamar-se água, water, eau etc.), o conceito,
pelo contrário, é um signo necessário da coisa designada:
nossos conceitos se formam por adequação à realidade.
Pois
a realidade, cada coisa real, tem um conteúdo inteligível,
um significado, "um quê", uma verdade que por um lado faz com que
a coisa seja aquilo que é, e, por outro, a torna cognoscível
para a inteligência humana. É precisamente isto o que se designa
por ratio.
Assim,
indagar "O que é isto?" ("O que é uma árvore?, "O
que é o homem?") significa, afinal de contas, perguntar pelo ser,
pelo "quê" (quidditas, whatness, qüididade), pela
ratio, pela estruturação interna de um ente que faz
com que ele seja aquilo que é (daí a sugestiva forma interrogativa
do francês: Qu'est-ce que..., "que é este quê?",
"que quê é isto?").
E
esta ratio que estrutura, que plasma um ente, é a mesma que
se oferece à inteligência humana para formar o conceito, que
será tanto mais adequado quanto maior for a objetividade com que
se abrir à realidade contida no objeto.
Dentre
as muitas e variadas formas de interpretação da expressão
"Deus fala"[46],
há uma especialmente importante nas relações entre
o falar divino e o humano: não é por acaso que S. João
emprega o vocábulo grego Logos (Verbum, razão,
palavra) para designar a segunda Pessoa da Ssma. Trindade que "se fez carne"
em Jesus Cristo: o Verbum não só é imagem do
Pai, mas também princípio da Criação (cfr.
Ap 3,14).
E
a criação - retomando a análise de Pieper no tópico
4 - deve ser entendida precisamente como projeto, design feito por
Deus através do Verbo. Numa comparação imprecisa[47]
com o ato criador divino, considero o isqueiro que tenho diante de mim.
Este objeto é produto de uma inteligência, há uma racionalidade[48]
que o estrutura por dentro. É precisamente essa ratio que,
por um lado, estrutura por dentro qualquer ente que, por outro lado, permite,
como dizíamos, acesso intelectual humano a esse ente[49].
No caso do isqueiro, a ratio que o constitui enquanto isqueiro é
o que me permite conhecê-lo e, uma vez conhecido, consertá-lo,
trocar uma peça etc.
Guardadas
as devidas distâncias[50],
é nesse sentido que a Revelação Cristã fala
da "Criação pelo Verbo"; e é por isso também
que a Teologia - naquela feliz formulação do teólogo
alemão Romano Guardini - afirma o "caráter verbal" (Wortcharakter)
de todas as coisas criadas. Ou, em sentença quase poética
- "as criaturas são palavras" - de Tomás: "Assim como a palavra
audível manifesta a palavra interior[51],
assim também a criatura manifesta a concepção divina
(...); as criaturas são como palavras que manifestam o Verbo de
Deus" (In Sent.I
d. 27, 2.2 ad 3).
9.
Ser e Participação em Tomás
Para
bem entender o pensamento e a linguagem de Tomás - também
no que diz respeito às questões ligadas a nosso tema do verbum
- é necessário falar de sua doutrina da participação[52].
Também para este caso, vale a sugestiva observação
de Weisheipl: "Tomás, como todo mundo, teve uma evolução
intelectual e espiritual. O fato assombroso, porém, é que,
desde muito jovem, Tomás apreendeu certos princípios filosóficos
fundamentais que nunca abandonou"[53].
Essa
doutrina encontra-se no núcleo mais profundo do pensamento do Aquinate
e é a base tanto de sua concepção do ser como - no
plano estritamente teológico - da graça. Indicaremos resumidamente
suas linhas principais.
Como
sempre, voltemo-nos para a linguagem. Comecemos reparando no fato de que
na linguagem comum, "participar" significa - e deriva de - "tomar parte"
(partem capere). Ora, há diversos sentidos e modos desse
"tomar parte"[54].
Um primeiro é o de "participar" de modo quantitativo, caso em que
o todo "participado" é materialmente subdividido e deixa de existir:
se quatro pessoas participam de uma pizza, ela se desfaz no momento em
que cada um toma a sua parte.
Num
segundo sentido, "participar" indica "ter em comum" algo imaterial, uma
realidade que não se desfaz nem se altera quando participada; é
assim que se "participa" a mudança de endereço "a amigos
e clientes", ou ainda que se "dá parte à polícia".
O
terceiro sentido, mais profundo e decisivo, é o que é expresso
pela palavra grega metékhein, que indica um "ter com", um
"co-ter", ou simplesmente um "ter" em oposição a "ser"; um
"ter" pela dependência (participação) com outro que
"é". Como veremos em mais detalhe, Tomás, ao tratar da Criação,
utiliza este conceito: a criatura tem o ser, por participar do ser
de Deus, que é ser. E a graça nada mais é do
que ter - por participação na filiação
divina que é em Cristo - a vida divina que é
na Santíssima Trindade.
Há
- como indica Weisheipl[55]
- três argumentos subjacentes à doutrina da participação:
1) Sempre que há algo comum a duas ou mais coisas, deve haver uma
causa comum. 2) Sempre que algum atributo é compartilhado por muitas
coisas segundo diferentes graus de participação, ele pertence
propriamente àquela que o tem de modo mais perfeito. 3) Tudo que
é compartilhado "procedente de outro" reduz-se causalmente àquele
que é "per se".
Nesse
sentido, adiantemos desde já as metáforas de que Tomás
se vale para exemplificar: ele compara o ato de ser - conferido em participação
às criaturas - à luz e ao fogo: um ferro em brasa tem
calor porque participa do fogo, que "é calor"[56];
um objeto iluminado "tem luz" por participar da luz que é
na fonte luminosa. Tendo em conta essa doutrina, já entendemos melhor
a sentença de Guimarães Rosa: "O sol não é
os raios dele, é o fogo da bola"[57].
Participação
envolve, pois, graus e procedência. Tomás parte do fenômeno
evidente de que há realidades que admitem graus (como diz a antiga
canção de Chico Buarque: "tem mais samba no encontro que
na espera...; tem mais samba o perdão que a despedida"). E pode
acontecer que a partir de um (in)certo ponto, a palavra já não
suporte o esticamento semântico: se chamamos vinho a um excelente
Bordeaux, hesitamos em aplicar este nome ao equívoco "Chateau de
Carapicuíba" ou "Baron de Quitaúna".
As
coisas se complicam - e é o caso contemplado por Tomás -
quando uma das realidades designadas pela palavra é fonte e raiz
da outra: em sua concepção de participação
a rigor, não poderíamos predicar "quente" do sol, se a cada
momento dizemos que o dia ou a casa estão quentes (se o dia ou a
casa têm calor é porque o sol é quente).
Assim, deixa de ser incompreensível para o leitor contemporâneo
que, no artigo 6 da Questão disputada sobre o verbo, Tomás
afirme que não se possa dizer que o sol é quente (sol
non potest dici calidus). Ele mesmo o explica, anos depois, na Summa
Contra Gentiles (I, 29, 2), que acabamos dizendo quente para o sol
e para as coisas que recebem seu calor, porque a linguagem é assim
mesmo:
"Como
os efeitos não têm a plenitude de suas causas, não
lhes compete (quando se trata da 'verdade da coisa') o mesmo nome e definição
delas. No entanto (quando se trata da 'verdade da predicação'),
é necessário encontrar entre uns e outros alguma semelhança,
pois é da própria natureza da ação, que o
agente produza algo semelhante a si (Aristóteles), já
que todo agente age segundo o ato que é. Daí que a forma
(deficiente) do efeito encontra-se a outro título e segundo outro
modo (plenamente) na causa. Daí que não seja unívoca
a aplicação do mesmo nome para designar a mesma ratio
na causa e no efeito. Assim, o sol causa o calor nos corpos inferiores
agindo segundo o calor que ele é em ato: então é necessário
que se afirme alguma semelhança entre o calor gerado pelo sol nas
coisas e a virtude ativa do próprio sol, pela qual o calor é
causado nelas: daí que se acabe dizendo que o sol é quente,
se bem que não segundo o mesmo título pelo qual se afirma
que as coisas são quentes. Desse modo, diz-se que o sol - de algum
modo - é semelhante a todas as coisas sobre as quais exerce eficazmente
seu influxo; mas, por outro lado é-lhes dessemelhante porque o modo
como as coisas possuem o calor é diferente do modo como ele se encontra
no sol. Assim também, Deus, que distribui todas suas perfeições
entre as coisas é-lhes semelhante e, ao mesmo tempo, dessemelhante".
Todas
essas considerações parecem extremamente naturais quando
nos damos conta de que ocorrem em instâncias familiares e quotidianas
de nossa própria língua: um grupo de amigos vai fazer um
piquenique em lugar ermo e compra alguns pacotes de gelo (desses que se
vendem em postos de gasolina nas estradas) para a cerveja e refrigerantes.
As bebidas foram dispostas em diversos graus de contato com o gelo: algumas
garrafas são circundadas por muito gelo; outras, por menos. De tal
modo que cada um pode escolher: desde a cerveja "estupidamente gelada"
até o refrigerante só "um pouquinho gelado"... Ora, é
evidente que o grau de "gelado" é uma qualidade tida, que
depende do contato, da participação da fonte: o gelo, que,
ele mesmo, não pode ser qualificado de "gelado"...
Estes
fatos de participação são-nos, no fundo, evidentes,
pois com toda a naturalidade dizemos que "gelado", gramaticalmente, é
um particípio...
Antes
de tratarmos da participação do ser, participação
constitutiva da criatura, apontemos um último exemplo. Participar
é receber de outrem algo; mas o que é recebido é recebido
não totalmente: assim participar implica um receber parcial de algo
(aliquid) de outro (ab alio). Um axioma de que Tomás
se vale diz: "Tudo que é recebido é recebido segundo a capacidade
do recepiente" (per modum recipientis recipitur). E assim "Omne
quod est participatum in aliquo, est in eo per modum participantis: quia
nihil potest recipere ultra mensuram suam" (I Sent. d. 8, q.1
a.2 sc2), algo que é participado é recebido segundo a capacidade
do participante, pois não se pode receber algo que ultrapasse a
sua medida (mensura). Numa sala de aula, por exemplo, cada aluno
participa da aula segundo sua capacidade de apreensão: alguns aprenderão
mais; outros, menos...
O
mesmo se passa com o ato mais fundamental e radical: o ato de ser. Tomás,
ainda muito jovem, realiza, com base na distinção aristotélica
entre potência e ato, uma descoberta revolucionária: a do
ato de ser (esse, actus essendi). É pelo ato de ser
que Tomás supera todo tipo de essencialismo e é "o mais existencialista
de todos os filósofos"[58].
Potência
e ato são noções básicas e intuitivas, tão
fundamentais que não se deixam definir. Precisamente uma das grandes
contribuições de Aristóteles para a história
da filosofia foi a de ter ensinado que há diversos modos de ser;
que o ser não é unívoco (nem equívoco), mas
análogo. Potência e ato são dois modos de ser: a potência
é um modo fraco; o ato, forte.
O
ato é o que mais propriamente é. Ato é o que é
real, fático, já realizado (aspecto acentuado pela nossa
palavra "atualmente"). É nesse sentido aristotélico de realidade
que a língua inglesa diz "actually" para indicar que algo
é realmente, de fato[59].
Já potência é o que pode vir a ser real (em ato), mas
de fato não o é; uma semente pode (está em potência
de) vir a ser (em ato) árvore; já uma pedra, não.
Na
perspectiva da tradição platônico-agostiniana - a corrente
dominante em Paris à época de Tomás -, não
ficava clara a distinção entre João da Silva e um
homem simplesmente pensado, ideal. Tomás, pelo contrário,
chama a atenção - com um bom senso notável - para
o fato de que um é, mas o outro não; o ser
não é uma atividade a mais que deriva da natureza de cada
coisa. O ser - no sentido de ser-real[60]
- está fora e acima da série de características que
compõem a essência. O fato de uma coisa ser, isto é,
exercer o ser em ato, ter ato de ser, é algo único
e absolutamente decisivo: "O ser é aquilo que há de mais
íntimo em cada coisa, e o que mais profundamente está inserido
em todos os entes" (I, 8, 1).
E
o que significa ser? Ser é, acima de tudo, atividade, ato. Todas
as coisas, todos os entes, são, antes de mais nada, aqueles
que "exercem o ato" de ser, fato que já a própria linguagem
comum recolhe: se o presidente é aquele que exerce a atividade
de presidir, o gerente a de gerir, o caminhante a de caminhar,
o ente exerce a de ser. Mas justamente por constituir a primeira
atividade, a mais fundamental - e "a mais maravilhosa", dirá Gilson
-, o ser escapa a qualquer definição: "O ato de ser não
pode ser definido"[61].
Não podemos transformá-lo num conceito, como o fazemos com
a essência de qualquer coisa, porque é anterior a qualquer
idéia. O ser é, e sempre será, um mistério
que o homem não pode esgotar.
Ao
contrário de todo pensamento essencialista, Tomás não
parte das essências, mas das coisas, dos entes, da realidade.
O
binômio fundamental da metafísica de Tomás é:
ato de ser / essência (esse, actus essendi / essentia).
Todo ente é e é algo: é homem, é cão,
é pedra. Nessa composição, se o responsável
pelo é do ente é o ato de ser, seu complemento necessário,
a essência, corresponde ao "quê" que o ente é.
Para
entendermos a linguagem de Tomás, lembremos que a essência
admite "sinônimos". Bem entendido: "sinônimo" não significa
identidade absoluta, mas sim que cada "sinônimo" aponta para um determinado
aspecto diferente da mesma e única realidade: tal como quando falamos
em "casa", "lar", "domicílio" ou "residência". Em si, a realidade
a que se referem estas palavras é a mesma e única edificação
na Rua Tal, número tal; mas ninguém diz "domicílio,
doce domicílio", nem a Prefeitura cobra impostos sobre meu lar
etc.[62].
Do
mesmo modo que casa, lar, domicílio etc. enfatizam
aspectos diferentes, assim também, falamos em essência
como contraponto do ato de ser; em natureza, quando queremos acentuar
o fato de que essa essência é princípio de operações[63];
ou em qüididade (quidditas), para enfatizar o fato de
que a essência é o que responde à pergunta: "O que
é isto?".
Ao
afirmar a composição essência/ato de ser, Tomás
não considera o ser como algo justaposto, acrescentado a uma essência
ideal, como algo separado a que se agrega o ser; o ato de ser é
que é o ponto de partida, o elemento mais fundamental de todos os
entes. E a essência é a medida[64]
da recepção do ato de ser.
Uma
comparação pode ajudar-nos a entender isto: nos sons
realmente emitidos por um flautista, podemos distinguir, por um lado, o
som, o ato de soar (na comparação: o ato de ser) e,
por outro lado, por assim dizer o tom, o "toar" (a essência),
a particular nota musical que caracteriza aquele som: soar e soar como
dó, ré, mi, si bemol etc. Na verdade, o soar e o toar
estão em intrínseca união: cada som emitido pelo instrumento,
vem unido a uma determinada freqüência que o define como tal
nota, e, inversamente, cada nota realmente emitida soa.
Ora,
também a essência, longe de ser uma realidade isolada à
qual se justaporia o existir, é entendida por Tomás como
intrinsecamente unida ao ente real e concreto: como de-finição,
de-limitação, de-terminação,
isto é estabelecendo os limites, o fim, o término, da recepção
do ato de ser por este ente concreto. Assim como o dó, o si bemol
e o sol se caracterizam como tais por receberem o seu soar em tais e tais
"medidas", assim também este ente tem uma essência (é
pedra, árvore, cão ou homem) por receber o actus essendi
em tal e tal forma, em tal medida.
"O
ser é a atualidade de toda forma ou natureza: só se podem
dar, em ato, bondade ou humanidade enquanto se dá o ser. Daí
que necessariamente o ser esteja para a essência como o ato para
a potência" (I, 3, 4).
Sem
termo de comparação com a flauta (onde não existe
o "puro ato de soar"), no caso de Deus - precisamente por não haver
delimitação na sua posse do ser - não se pode propriamente
falar em essência, mas em puro ato de Ser. Ele é ato puro,
de cujo ser participam todos os entes.
10.
Tomás do Deus Criador[65].
Esta
afirmação do ato de ser é como que uma prova da existência
de Deus, a não ser que neguemos que as coisas são.
A atividade de todos os entes decorre da sua natureza: a mangueira germina,
cresce, floresce e dá mangas porque é mangueira. Está
na sua essência fazê-lo. Todas as mangueiras o fazem. Mas o
ser, apesar de constituir a principal atividade exercida pelos entes -
todos os entes -, não decorre da sua natureza; é "anterior"
a ela, só é compreensível se as coisas o exercem como
algo recebido; "assim, o ser que está presente nas coisas
criadas, pode somente remontar-se ao ser divino"[66].
Tal
como o fogo ou a luz criam uma dependência contínua nas coisas
que deles participam, sendo por eles aquecidas ou iluminadas, assim também
a criação não é entendida por Tomás
simplesmente como um começo, mas como uma situação:
a presença fundante do Criador no ente criado. Ou seja, se somos,
é porque Deus nos mantém continuamente no ser. Dependemos
dEle da forma mais profunda e absoluta, e tudo nos vem deste primeiro ato
"fundacional". Mesmo quem se volta contra Deus está sendo por Ele
mantido no ser amparado em cada instante e em cada ato que realiza.
Essa
intuição de Tomás permite afastar qualquer panteísmo,
pois a criação, sendo ex nihilo, a partir do nada,
estabelece um infinito abismo diferencial entre o ser de Deus e o ser das
criaturas, ser recebido por participação. Fica excluída
qualquer possibilidade de um Universo divino, e fica excluída portanto
qualquer visão do ser humano como simples "gota de água"
nesse "oceano de divindade", sem liberdade e sem responsabilidade.
Daí
decorre também que todo e qualquer ente espelhe a Deus, pela essência
e pelo ato de ser: "Todas as coisas, na medida em que são, reproduzem
de algum modo a essência divina; mas não a reproduzem todas
da mesma maneira, mas de modos diferentes e em diversos graus. Assim, o
protótipo e o original de cada criatura é o próprio
Deus, na medida em que este é reproduzido de determinada maneira
por determinada criatura"[67].
"Todas as coisas, na medida em que são, assemelham-se a Deus, que
é o ser primeiro e principal"[68].
"A criatura é trevas na medida em que provém do nada; mas
na medida em que provém de Deus, participa de uma certa semelhança
com Ele e conduz à semelhança com Ele"[69].
Esta
afirmação encerra em si importantes conseqüências
para o pensamento e para a vida. Ao contrário da corrente "espiritualista"
de sua época, que via na matéria a fonte da limitação,
e portanto recomenda a "negação do mundo" como atitude necessária
para se atingir a Deus, Tomás verá nesse mesmo mundo - nas
coisas criadas - o caminho para se chegar até Ele. "O ser é
um reflexo da divina bondade; assim, quando alguém deseja qualquer
coisa, deseja no fundo assemelhar-se a Deus e, implicitamente, deseja o
próprio Deus"[70].
"Quando a nossa mente se ocupa das coisas temporais buscando nelas o seu
fim, rebaixa-se a elas; mas quando se ocupa delas em ordem à bem-aventurança,
longe de rebaixar-se a elas, eleva-as a Deus"[71].
Tomás
é portanto decididamente também "materialista". No entanto,
essa atitude não se opõe nele à fé; pelo contrário,
ajuda a compreendê-la melhor, e vem reforçar um aspecto central
que desde sempre esteve afirmado pelo cristianismo: o mundo material é
criatura de Deus, não algo oposto a Ele.
11.
A alma como forma
Tomás
apresenta uma impressionante unidade de visão quando contempla o
mundo material. Para analisar a realidade material, ele parte das experiências
dos fenômenos da unidade de cada ente e das mudanças substanciais
nas quais ocorre uma mudança de sujeito: uma coisa deixa de ser
o que é e passa a ser outra: o papel que se trans-forma em cinza,
por exemplo. Ora, a cinza não proveio do nada (mas evidentemente
do papel) e o papel não se reduziu ao nada (deixou de ser papel
e passou a ser cinza). Há, portanto, nesses casos de mudança
de substância, algo que permanece e algo que muda (o que está
a indicar que a substância é composta). Aquilo que permanece
é a pura potencialidade de ser um ente físico (matéria
prima), atualizada em cada caso por um fator determinante dessa
potência que faz com que o papel seja papel e cinza seja cinza: a
forma substancial.
A
matéria é esse modo fraco de ser que é a potência;
a forma é que é o componente decisivo na constituição
de um ente: é pela forma que um ente é o que é. A
pedra é pedra porque tem forma de pedra; o homem é homem
porque tem forma de homem.
Assim,
para Tomás, todo ente físico é composto de uma intrínseca
união de matéria (a potência de ser ente físico)
e forma (o ato que "atualiza" a matéria). E é tal sua unidade
de consideração do cosmos, que emprega o mesmo binômio
matéria/forma para indicar tanto a composição substancial
de uma pedra quanto a de um homem.
Alma,
para Tomás, é simplesmente uma forma, a forma dos viventes.
Uma forma muito especial (daí que também receba um nome especial[72]),
mas uma forma. Desse modo, pode-se falar em alma de um vegetal, em alma
de uma formiga ou de um cão e em alma humana (no caso, uma alma
espiritual).
A
alma (como, aliás, todas as formas substanciais) é um princípio
de composição substancial dos viventes. Ou melhor, um co-princípio
(em intrínseca união com o outro princípio: a matéria).
É pela alma que se constitui e se integra o vivente enquanto tal,
e ela é também a fonte primeira de seu agir.
Contra
todo dualismo que tende a separar exageradamente no homem a alma espiritual
e a matéria, Tomás afirma a intrínseca união
e mútua ordenação de ambos os princípios.
A
seguir, daremos um exemplo - o caso do objeto próprio da potência
espiritual da alma que é a inteligência - que nos ajudará
a compreender o alcance desse "materialismo" de Tomás.
Não
operamos diretamente pela alma, mas por meio de suas potências[73].
Ora, cada potência da alma é proporcionada a seu objeto: a
potência auditiva não capta cores, a potência visual
não atua sobre aromas.
Dizer
que a inteligência é uma faculdade espiritual é dizer
que seu campo de relacionamento é a totalidade do ser: todas as
coisas visíveis e invisíveis são inteligíveis;
"calçam" bem, combinam com a inteligência. Contudo, a relação
da inteligência humana com seus objetos não é uniforme.
Dentre os diversos entes e diferentes modos de ser, uns são mais
direta e imediatamente acessíveis à inteligência.
É
o que Tomás chama de objeto próprio de uma potência:
aquela dimensão da realidade que se ajusta, por assim dizer, sob
medida, à potência (ou, melhor dito, vice-versa). Não
que a potência não possa incidir sobre outros objetos, mas
o objectum proprium é sempre a base de qualquer captação:
se pela visão captamos, por exemplo, número e movimento (digamos,
sete pessoas correndo), é porque vemos a cor, objeto
próprio da visão.
Próprio
da inteligência humana - potência de uma forma ordenada à
matéria - é a abstração: seu objeto próprio
são as essências das coisas sensíveis.
"O
intelecto humano, porém - diz Tomás, contrapondo a inteligência
do homem à do anjo -, que está acoplado ao corpo, tem por
objeto próprio a natureza das coisas existentes corporalmente na
matéria. E, mediante a natureza das coisas visíveis, ascende
a algum conhecimento das invisíveis" (I, 84, 7). E nesta afirmação,
como dizíamos, espelha-se a própria estrutura ontológica
do homem na vida presente.
Esta
atitude de reta afirmação da realidade material é
tão central em Tomás que constituiria assunto sem fim. Limitemo-nos
a apontar um par de temas conexos.
Esse
posicionamento considera, por exemplo, que mesmo as realidades mais espirituais
são alcançadas através do sensível. "Ora -
prossegue Tomás -, tudo o que nesta vida conhecemos, é conhecido
por comparação com as coisas sensíveis naturais".
Esta sentença, além do mais, sugere-nos que o sentido extensivo
e metafórico está presente na linguagem de modo muito mais
amplo e intenso do que à primeira vista poderíamos supor.
Consideremos
também a liturgia. O que é a liturgia senão a aplicação
até as últimas conseqüências da tese: anima
forma corporis (a alma é forma do corpo)? A realidade mais espiritual
vem traduzida em gestos, cores, e cantos. E a graça sacramental
é eficazmente veiculada pela materialidade do vinho e do pão,
"fruto da terra e do trabalho do homem". Fora desse reconhecimento tanto
da realidade natural do homem quanto da realidade sobrenatural da graça,
dão-se duas possibilidades: ou a liturgia desaparece, quando se
considera o homem uma espécie de espírito puro unido acidentalmente
à matéria (para que serviriam sacramentos, gestos, imagens,
etc., se a religião é "espiritual"?); ou se absolutizam os
ritos, e ela se torna um mero "happening" comunitário...
12.
Nota sobre a unidade do ser humano
Falávamos
do ser do homem, do que o homem é, da profunda dependência
dos sentidos que tem o conhecimento intelectual. Sobre essa unidade do
homem deu-se a grande oposição a Tomás em Paris em
sua segunda regência. Seus adversários afirmavam a existência
de uma alma espiritual humana à parte, situada acima da realidade
corpórea, sendo a dimensão sensível e a fisiológica
do homem regidas por outros princípios, por uma "alma sensitiva"
e outra "vegetativa"; só a "alma espiritual" seria objeto da teologia,
e o resto não teria interesse algum. Já o universalismo de
Tomás recusava-se a estreitar o âmbito da teologia, reduzindo-a
ao que é puramente espiritual, como se o corpo não tivesse
sido criado por Deus, como se o Verbo não se tivesse feito carne.
A
posição contrária refletia a tendência de reduzir
a Criação a um dos seus aspectos, o espiritual: nesta perspectiva
torna-se muito difícil entender qual o papel do corpo no que diz
respeito à Salvação. Quando muito será um obstáculo,
mera ocasião de pecado. E já se vê que não estamos
longe da tremenda negação maniquéia do corpo e da
alegria de viver.
Tomás,
pelo contrário, aceita tão completamente o corpo como integrante
essencial da realidade do ser humano tal como criado por Deus, que chega
a afirmar que "a alma unida ao corpo é mais semelhante a Deus do
que a alma separada dele, porque possui com mais perfeição
a sua própria natureza. Cada coisa é semelhante a Deus na
medida em que é perfeita, mesmo que a perfeição de
Deus e a da criatura sejam diferentes entre si"(De pot. 5,10 ad
5). E "a alma necessita do corpo para conseguir o seu fim, na medida em
que é pelo corpo que adquire a perfeição no conhecimento
e na virtude"(CG 3, 144).
Tomás
afirma, sem dúvida, que a felicidade definitiva do homem reside
na posse de Deus pela contemplação, pelo olhar de amor -
"vendo o Teu rosto, seja eu feliz contemplando Tua glória", havia
escrito no hino Adoro te devote -; mas prossegue dizendo que esta
felicidade não é algo "transferido" para depois da morte,
e sim algo que irrompe, que já se inicia nesta vida, pela fruição
dos bens do mundo, até mesmo de um copo de água fresca num
dia de calor: "Assim como o bem criado é uma certa semelhança
e participação do Bem Incriado, assim também a consecução
de um bem criado é uma certa semelhança e participação
da bem-aventurança final"(De Malo 5, 1 ad 5)[74].
13.
Outras notas sobre a quaestio disputata sobre o verbo
Dedicamos
este último tópico a destacar algumas outras passagens mais
importantes na Questão disputada sobre o Verbo e a esclarecer
algumas questões "técnicas" de mais relevo para o estudioso
de hoje.
Inicialmente
observemos que no caso dos textos sobre o verbum, uma grande dificuldade
na tradução do texto decorre do fato de que, em latim, verbum
significa não só palavra, a palavra exterior vocalmente
proferida, mas também o verbum interius, verbum mentis, a
"palavra" interior, o conceito, a idéia, que corresponde à
palavra exterior. Verbum significa ainda o Filho, a segunda Pessoa
da Ssma. Trindade. E, finalmente, na gramática, a palavra que, tal
como no português, "designa ação, estado, qualidade
ou existência de pessoa, animal ou coisa".
Uma
tal acumulação semântica não se dá em
português e, assim, das 463 ocorrências de verbum (e
seus derivados) na quaestio "De Verbo" de Tomás, somente
numas poucas ele se refere estritamente à palavra sonora. Quando
não se trata do Verbo divino (nesse caso grafaremos com V
maiúsculo), a maior parte das incidências de verbum diz
respeito ao conceito ou àquilo que há de comum entre a palavra
sonora e o conceito.
Ora,
dado o relevo que a linguagem ocupa no pensamento e na metodologia de Tomás,
o leitor contemporâneo perderia muito de sua argumentação,
se não estivesse prevenido para este fato e sua importância.
Assim, em nossa tradução, em atenção à
acumulação semântica latina, mantivemos "verbo",
que o leitor deve interpretar como "palavra", "conceito" ou "Verbo (divino)":
devemos nos lembrar que, para Tomás, estas idéias estão
natural e espontaneamente identificadas em verbum[75].
Outro
ponto importante para a boa compreensão do pensamento de Tomás
sobre o Verbum é a tese, diversas vezes reafirmada por Tomás,
de que a Criação é obra de toda a Santíssima
Trindade, e que constitui uma união de ser, verdade e bem que espelha
a Unidade das três Pessoas divinas: Pai, Filho e Espírito
Santo. "Deus Pai opera a Criação pelo seu Verbo, que é
o Filho, e pelo seu Amor, que é o Espírito Santo"[76].
O ato de "dar o ser" está unido ao Pensamento divino, ao Verbo que,
juntamente com o ser, dá inteligibilidade e "verdade" à criatura:
ao criá-la, dota-a daquela essência, que pode ser objeto
de análise racional.
Assim,
todo ente tem, insistamos, uma essência, uma natureza, um modo de
ser pensado, planejado por Deus; está organizado ou estruturado
segundo um "projeto" divino. Cada coisa criada é o que é,
possui uma natureza, precisamente por ter sido criativamente criada pelo
Verbo, por proceder de um design divino do Logos.
Já
no artigo 1 da questão disputada sobre o Verbo, Tomás começa
explicando o porquê da acumulação semântica em
verbum e a prioridade do verbo interior (ainda que o verbo vocalmente
proferido seja-nos mais notório). Neste artigo, referindo-se ao
verbo interior, Tomás distingue o "verbo do coração",
aqui entendido como o conceito (independente de qualquer referência
à palavra sonora) e o "verbo interior", relacionado à palavra
que vai ser vocalmente proferida. Tal como em "ente", "bom" e outros nomes
que aplicamos às criaturas e a Deus (e são, para nós,
mais imediatamente perceptíveis na criatura, mas propriamente se
dão em Deus), também o verbo da mente é mais propriamente
verbo por ser causa.
Também
este tema - o da causalidade e da causalidade exemplar divina - não
é alheio à nossa experiência quotidiana. Chega a ser
mesmo um dos temas centrais de um dos nossos mais promissores poetas sertanejos:
José Gilberto Gaspar. Na singeleza clássica de seu poema
"Diálogo das Rosas"[77],
Gaspar retoma a metafísica da causalidade formal exemplar, isto
é, a criação como projeto intelectual de Deus. Lembremos
que o mirandum da coisa (o potencial de admiração,
que segundo Tomás é o princípio do filosofar e do
ato poético) decorre de sua causa formal exemplar, Deus: "Deus
est causa formalis creaturarum"[78].
Ora, afirmar que Deus é causa formal é afirmar que a Criação
é ato inteligente pelo qual a coisa recebe - do Verbo[79]
- uma verdade, uma ratio, uma inteligibilidade em seu ser: "'verdadeiro'
acrescenta ao ente uma relação com a forma exemplar"[80],
que a coisa, por assim dizer, "repassa" ao intelecto e ao engenho humano:
o artificial remete ao natural - "Ars enim in sua operatione imitatur
naturam" (C. G. III, 10, 10; In Phys. II 4,6).
Assim,
no "Diálogo das Rosas", uma rosa artificial discute com a rosa natural
e vangloria-se de sua "imortalidade". A natural, após demonstrar
que, na verdade, a outra nunca teve vida, evoca a dupla causalidade exemplar:
-
Tu és uma cópia minha
É
por mim que tu existes... (...)
Não
tenho inveja, portanto
Dos
longos dias teus
Foste
feita pelo homem
E
eu, pelas mãos de Deus!
Em
sua aguda simplicidade, Gaspar retoma a análise do tema do ateísmo
contemporâneo: a negação de Deus é hoje, sobretudo,
negação da criação e da causalidade exemplar
(recorde-se a já citada sentença de Sartre: "Não há
natureza humana, pois não há Deus para a conceber
(concevoir)", isto é, para a projetar, pensar. No poeta,
reencontramos até essa mesma palavra de que Sartre e Tomás
se valem para referir-se à causalidade formal criadora: conceber[81].
Mesmo uma simples flor, reconhecendo-se criada (pela "milagrosa" inteligência
de Deus), envaidece-se:
Não
por ser bela e cheirosa
Mas
por ser bem concebida.[82]
O
verbo, enquanto conceito, é operação do intelecto.
Tenha-se em conta que Tomás, seguindo neste ponto a Aristóteles,
distingue três operações do intelecto humano: a simples
apreensão, o juízo e o raciocínio. A primeira operação
do intelecto, a que produz o conceito: é como o próprio nome
diz, uma simples apreensão de uma "forma" - digamos, de gato, diamante
ou homem -, anterior a qualquer afirmação ou negação.
Já o juízo, a segunda operação da mente, afirma
ou nega, ou, no linguajar de Tomás, é ato do intelecto que
compõe ou divide, junta ou separa ("o gato é pardo", "o diamante
não é mole" etc.). E o raciocínio enlaça logicamente
juízos para, silogisticamente, chegar a novos juízos. O raciocínio
não se dá em Deus - que conhece tudo em um único ato
- e é típico da debilidade do intelecto humano que precisa
caminhar de potência a ato (por exemplo: demonstrar um teorema em
Matemática é extrair, tornar ato, pelo raciocínio,
uma proposição que estava potencialmente contida nas premissas).
Para
a leitura do opúsculo Sobre a diferença entre a palavra
divina e a humana, tenha-se em conta que é um comentário
à sentença: "No princípio era o Verbo" (Jo 1, 1).
E, como tal, é extremamente sugestivo para o leitor contemporâneo:
a discussão do falar de Deus e do falar humano é sempre atual,
bem como o são as fundamentais questões filosófico-teológicas
levantadas por Tomás. Nesse sentido, já o título do
opúsculo pressupõe um falar divino: Deus fala! É interessante
observar que hoje muitos agnósticos e ateus insistem em afirmar
não apenas a não-existência de Deus, mas, especialmente,
a não-existência de um falar de Deus[83].
São
ainda necessários mais alguns esclarecimentos a propósito
da linguagem de Tomás.
O
intelecto, no homem, é uma das potências da alma. Potência
aqui é sinônimo de faculdade (que está em "potência"[84]
para a operação) e não como potência "ontológica",
contraponto do ato. Para bem compreendermos o que diz Tomás, observemos
também que espécies, para ele, são formas intermediárias
presentes no processo de conhecimento[85].
Por exemplo, a forma de homem, isto é, a estruturação
interna de Fulano que faz com que ele seja um homem, é intelectualmente
apreendida pela abstração[86]
feita pelo sujeito cognoscente. Para que isto ocorra, há uma primeira
presença dessa forma abstrata no intelecto, chamada espécie
impressa, sobre a qual o próprio intelecto age para formar o
conceito (também chamado espécie expressa), no
qual vai conhecer a própria realidade da "humanidade" de Fulano.
O caráter de palavra (de verbum), como Tomás mostrará,
aplica-se à espécie expressa, ou seja, ao conceito.
A
"espécie da coisa" de que fala Tomás é a forma da
coisa, tomada como objeto de conhecimento. Ora, há conhecimento
sensível (que versa sempre sobre formas concretas) e há conhecimento
intelectual; e, assim, há espécies sensíveis (como
a cor afetando a pupila) e espécies intelectuais (como a "humanidade"
de Fulano, para o intelecto).
Em
De differentia I, 2, Tomás convida a pensar a que tipo de
realidade se dirigem as palavras. A que se refere a palavra "pedra"? Certamente
não se refere à própria substância do intelecto,
nem à espécie impressa, nem ao próprio ato de entender,
mas à estruturação formal que faz com que este ente
seja tal: pedra. Daí que o conceito[87]
possa chamar-se com propriedade verbum, palavra, palavra interior,
pois é concebido (e, assim, intelectualmente proferido, expresso)
pelo sujeito. Não por acaso o conceito é espécie expressa:
se a palavra exterior é proferida acusticamente, o conceito o é
interiormente.
Em
I,3, Tomás lembra que uma das operações realizadas
pelo intelecto é a da produção do conceito, operação
chamada por Tomás de "indivisível", por oposição
a uma outra operação intelectual, a saber, a de emitir juízos,
classicamente denominada: "compor e dividir" (afirmar e negar).
Em
I,4, expressa-se o profundo realismo de Tomás: não conhecemos
conceitos, mas a própria verdade das coisas (contemplada no conceito,
é certo, mas como meio de união à própria realidade).
A estruturação interna objetiva, a ratio pela qual
a pedra é pedra e não outra coisa, é fonte e raiz
do conceito, a ratio na mente do sujeito cognoscente. Nosso conhecimento
intelectual apóia-se no sensível: a interiorização
das formas sensíveis e concretas (espécie expressa sensível
ou, como diz Tomás, "phantasma"), digamos, do cachorro Lulu
(sua cor concreta, dimensões etc.). O intelecto "ilumina" esse phantasma,
tornando inteligível a essência de cachorro que nele estava
escondida: produz assim a espécie impressa intelectual, sobre a
qual o intelecto vai agir para produzir o conceito: espécie expressa
intelectual, na qual a própria realidade "cachorro" será
contemplada.
Há
três diferenças entre o falar de Deus e o do homem. A primeira
diferença (cap. IV) diz respeito à imperfeição
do falar humano. Ao falar em "perfeita contemplação da verdade",
Tomás quer dizer não que a posse da verdade seja plena para
o homem na vida presente; refere-se, isto sim, a uma imperfeita contemplação
da verdade que se perfaz na medida do limitado alcance do conhecimento
humano. Aliás, o próprio caráter de processo (cogitação),
que se dá no raciocínio é, como fica bem claro no
texto, sinal de imperfeição: o homem não conhece direta
e intuitivamente a realidade, mas atinge a maior parte de seus conhecimentos
pelo raciocínio, em que o intelecto é "lançado de
um lado para o outro (...): cogitação, isto é, o pensamento
que discorre e indaga" (IV, 3). Processo, raciocínio, cogitação
são sinais de imperfeição que não se dão
no conhecimento divino.
Já
ao discutir a segunda diferença entre o falar de Deus e o do homem,
Tomás expressa uma genial consideração sobre a importância
metodológica da análise da linguagem para o filosofar. A
linguagem é receptáculo das grandes intuições
de sabedoria do homem: ao contrário de Deus, que tudo expressa em
seu Verbo; "nós não podemos expressar em uma única
palavra tudo o que há em nossa alma e, por isso, exprimimos fragmentária
e setorialmente tudo o que conhecemos" (V,1). Essa complexidade do real
para nós e o caráter fragmentário de nossas
palavras e conceitos, estão na base do interesse do filósofo
em desentranhar o sentido originário dos modos de dizer e de formulações
consagradas pela linguagem, segundo a tese de que cada língua acentua
um particular aspecto da realidade.
E quanto à terceira diferença, tenha-se em conta a unidade, em Deus, de Sua essência e dos atributos (justiça, onipotência etc.) que podemos Lhe predicar.
- entre os remédios contra a tristeza - que é muito perniciosa, pois "dentre todas as paixões da alma é a que mais dano causa ao corpo"(I-II, 37, 4) -, inclui os banhos e o sono (I-II, 38), que combatem a tristeza porque "restabelecem a natureza corporal", como Deus manda.
-
Tomás defende e preconiza o brincar (ludus) - "O brincar
é necessário para a vida humana"(II-II, 168, 3 ad 3) - tanto
no Comentário à Ética como na Summa.
-
Tomás nunca fala do sexo como de algo vergonhoso ou pecaminoso;
pelo contrário, afirma que a força sexual é não
só um bem, mas um bonum superior. Neste campo, como em todos
os outros, o pecado reside no afastamento do reto uso da natureza previsto
pelas leis de Deus - na coisificação do sexo, como ocorre
no adultério etc.